Com crise do Banco Master, Redata trava. Olhos se voltam ao Confaz.

Projeto voltado à competitividade dos data centers para no Senado em meio à crise política em torno do Banco Master e à discussão sobre incluir o gás entre os insumos energéticos; setor se volta à decisão do Confaz sobre ICMS na próxima semana.

(crédito: Freepik)

O Redata, projeto visto pelo setor de infraestrutura digital como uma iniciativa central para melhorar a competitividade brasileira na atração de data centers, perdeu tração no Senado e enfrenta um cenário de forte incerteza política. Em conversas reservadas com o Tele.Síntese, interlocutores do mercado afirmam que a proposta deixou de ser tratada como prioridade e que sua tramitação foi atingida por uma combinação de ruído político e disputa sobre o texto.

O pano de fundo político citado por esses interlocutores é o caso Banco Master. O Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da instituição em 18 de novembro de 2025. Desde então, o episódio ganhou novas dimensões com o avanço das investigações e a prisão de seu controlador, Daniel Vorcaro. Reportagem da Reuters publicada em 13 de março de 2026 informou que mensagens e documentos apreendidos na apuração do caso expuseram a proximidade do banqueiro com autoridades e agentes públicos, ampliando a sensibilidade política do tema em Brasília.

Na avaliação de agentes do setor, essa crise contaminou o ambiente de negociação no Senado. A leitura de bastidor é que o Redata entrou em uma dinâmica mais ampla de blindagem política e de tensão entre parlamentares, que cobram do governo esforços por abafar o caso – o que não vem sendo feito. O Redata é citado entre as questões que só voltam à pauta mediante blindagem. Isso reduziu o espaço para a tramitação célere de um projeto estratégico para a agenda de data centers, infraestrutura computacional, processamento local e soberania de dados.

Gás amplia incerteza sobre a tramitação

Além do ruído político, outro fator apontado para a demora do Senado em apreciar o PL do Redata é a pressão de parte dos senadores para incluir o gás entre os insumos energéticos contemplados no projeto.

Pelo relato de representantes do mercado, a inclusão do combustível não encontra resistência de princípio entre empresas interessadas na expansão da infraestrutura computacional, desde que ele figure como uma alternativa adicional de matriz energética. O problema está no efeito legislativo da adição de emenda. Se o Senado alterar o texto, o projeto retorna à Câmara, o que amplia o prazo de tramitação e aumenta as incertezas sobre o desfecho.

A leitura de interlocutores ouvidos pela reportagem é que o entrave não está no mérito da proposta, mas no fato de que a discussão sobre o gás se soma a um ambiente político já deteriorado.

Setor vê perda de timing para investimentos

O atraso acendeu um alerta entre empresas e entidades ligadas à cadeia de infraestrutura digital. A percepção é que o tempo da política brasileira não acompanha o ritmo das decisões globais de investimento.

Na visão desses agentes, um atraso de semanas ou meses pode significar perda de projetos para outros países. A avaliação é que decisões sobre instalação de capacidade computacional, processamento e armazenamento têm sido tomadas em janelas mais curtas, em meio à expansão global da demanda por inteligência artificial e serviços digitais.

A preocupação está diretamente ligada ao custo de implantação no Brasil. O diagnóstico do setor é que a carga tributária segue entre os principais entraves à competitividade do país na disputa por data centers. O Redata era visto justamente como uma tentativa de enfrentar esse problema e de criar condições mais favoráveis para a internalização desses investimentos.

Sem uma definição rápida, a expectativa entre os interlocutores é de que o Brasil continue recebendo aportes de forma mais limitada, abaixo do que poderia capturar em um cenário de maior previsibilidade regulatória e tributária.

Confaz passa ao centro da estratégia

Com o travamento do projeto no Senado, a principal esperança de curto prazo do setor passou a ser o Confaz. A aposta está em um convênio que autorize os estados a reduzir em 90% o ICMS sobre equipamentos de tecnologia destinados a data centers. A decisão ali deve ser unânime entre todos os estados, e quase todos já concordaram com a ideia – exceto Rio de Janeiro, que pediu vistas ainda em 2025, e precisa trazer a pauta na próxima reunião.

Essa frente ganhou relevância porque atinge uma parcela expressiva do custo tributário desses investimentos. A aprovação do convênio não significará adesão automática de todos os estados, mas abrirá caminho para que cada unidade da federação decida se aplica ou não o benefício.

A lógica defendida por representantes do mercado é que uma decisão favorável no Confaz pode produzir dois efeitos. O primeiro é econômico, ao criar uma alternativa concreta de desoneração estadual. O segundo é político, ao aumentar a pressão sobre a esfera federal e sobre o Senado para que o Redata volte a avançar.

Pressão recai sobre reunião da próxima semana

Nos bastidores, a avaliação é que a próxima reunião do Confaz, prevista para o dia 27, ganhou peso justamente porque o setor passou a enxergá-la como a principal frente com possibilidade concreta de avanço no curto prazo. A expectativa é que uma autorização para redução de ICMS funcione como sinal de que os estados estão dispostos a agir para melhorar a competitividade do país em infraestrutura computacional.

Se isso ocorrer, crescerá a cobrança para que governo federal e Congresso também destravem sua parte da agenda. A interpretação é que, se os estados fizerem um movimento objetivo para reduzir custos de implantação, ficará mais difícil para o Senado sustentar a paralisação da proposta federal.

Por ora, porém, o cenário segue marcado pela incerteza. Entre a crise política em torno do Banco Master, a discussão sobre a inclusão do gás e a falta de perspectiva clara de votação no Senado, o Redata permanece em compasso de espera e, para alguns, já não há chances de, mesmo que aprovado, os surta efeitos desejados ainda neste ano. Vale lembrar que o PL, após aprovado e sancionado, ainda precisará de portarias que o regulamentem, tornando sua efetividade em 2026 ainda menos provável.

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Rafael Bucco

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