Antes de regular, Congresso deve ouvir os cérebros por trás da IA

Autor defende escuta qualificada do capital humano brasileiro em inteligência artificial e aponta impacto econômico da regulação

Rodrigo Terron e IA

Por Rodrigo Terron* – Sempre que usamos uma ferramenta de inteligência artificial – para escrever um texto, organizar informações, apoiar decisões médicas ou melhorar serviços públicos – tendemos a enxergar apenas o resultado. Mas por trás de cada sistema de IA em funcionamento existe um grupo de profissionais altamente qualificados: desenvolvedores, engenheiros e cientistas de dados que combinam criatividade, domínio técnico e conhecimento profundo para transformar ideias em tecnologia real.

Essas pessoas são, literalmente, o cérebro da inteligência artificial. São elas que escrevem os códigos, treinam modelos, avaliam riscos, corrigem falhas e decidem como a tecnologia se comporta no mundo concreto. Sem esse capital humano, não existe IA.

O Brasil tem uma posição privilegiada nesse cenário. O país já figura entre os principais mercados globais da Gemini, da Google, respondendo por cerca de 7,5% do tráfego mundial da plataforma. Segundo dados da OpenAI, o Brasil está entre os três maiores usuários semanais do ChatGPT no mundo e registra cerca de 140 milhões de mensagens por dia na plataforma. Mais do que usuários, somos também produtores de tecnologia: o Brasil ocupa o segundo lugar no mundo em número de desenvolvedores que utilizam a API da OpenAI e está entre os cinco países com maior disseminação de talentos em inteligência artificial.

Esses números mostram que os desenvolvedores brasileiros são um ativo estratégico. Em um momento em que o setor de tecnologia e comunicação já responde por 6,5% do PIB brasileiro, segundo a Brasscom (Associação das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação e de Tecnologias Digitais), decidir o futuro da IA é decidir também o futuro econômico do país.

Valorizar quem desenvolve tecnologia é condição básica para que o Brasil seja protagonista na produção de soluções próprias, e não apenas consumidor de ferramentas criadas no exterior. Foco na formação de mão de obra, acesso às ferramentas de IA para a população, letramento digital, tudo isso é essencial para preservar e ampliar esse ativo essencial.

Mas não só. É preocupante que esse público fundamental tenha sido pouco ou nada ouvido no debate sobre a regulação da inteligência artificial. As discussões sobre o PL 2338/23 avançam no Congresso a partir de preocupações legítimas – segurança, direitos, transparência –, mas sem incorporar de forma consistente a visão de quem constrói a IA no dia a dia, de quem entende as limitações técnicas e as consequências práticas de determinadas escolhas regulatórias.

Esse descompasso traz riscos reais. Uma regulação desequilibrada, excessivamente rígida ou desconectada da realidade técnica pode acelerar a perda de cérebros. Desenvolvedores de IA são profissionais altamente disputados globalmente. Se o ambiente brasileiro se tornar hostil à inovação, esses talentos simplesmente migrarão para mercados mais abertos – levando consigo conhecimento, capacidade produtiva e potencial de crescimento.

O impacto dessa perda vai além do desenvolvimento da IA brasileira. Significa menos startups, menos pesquisa aplicada, menos soluções pensadas para problemas brasileiros em áreas como saúde, educação, agricultura e serviços públicos. Significa reduzir a autonomia tecnológica do país em um campo que já molda produtividade, competitividade e desenvolvimento social.

Regular a inteligência artificial é necessário. Mas regular bem exige escuta qualificada. O Congresso e os agentes públicos precisam ouvir quem faz a IA na prática: quem desenvolve, testa e aperfeiçoa essas tecnologias todos os dias. Esses profissionais podem ajudar o Brasil a construir uma regulação equilibrada, capaz de proteger direitos sem sufocar inovação.

Se o país quer desenvolver uma inteligência artificial brasileira, alinhada à sua realidade e ao interesse público, precisa dar voz aos seus desenvolvedores. Eles representam a base sobre a qual o futuro digital do Brasil está sendo construído.

* Rodrigo Terron, programador, empresário e fundador da NewHack, ecossistema de apoio a empreendedores

 

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