Tarifas dos EUA podem provocar perda de 110 mil empregos no setor de TIC
Estudo da Softex propõe resposta coordenada entre governo, empresas e agências para reposicionar o Brasil nas cadeias globais de valor

A entrada em vigor, a partir de 1º de agosto, de tarifas de até 50% sobre produtos brasileiros de tecnologia pelos Estados Unidos acende um alerta para o setor nacional de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC). De acordo com estudo divulgado pelo Observatório Softex, a medida pode provocar a perda de até 110 mil empregos no Brasil em um ano, sendo 26 mil apenas na indústria.
Intitulado “Impactos das Políticas Tributárias Norte-Americanas no Ecossistema Brasileiro de TIC”, o estudo combina modelos econométricos, análise geopolítica e benchmarks internacionais para avaliar os riscos da medida e sugerir uma resposta estratégica coordenada entre o governo, empresas e instituições de fomento.
Impacto no hardware e perda de margem
O setor de hardware aparece como o mais vulnerável. Empresas que dependem de sensores, placas e baterias importadas, e que possuem baixa verticalização da produção, podem perder entre 15% e 25% de seus postos de trabalho em até 18 meses. Mesmo empresas que não exportam diretamente devem sentir os efeitos do aumento nos custos de insumos, estimado em 14,5%, com impacto direto sobre as margens de lucro, que podem cair até 6,3%.
Segundo o estudo, uma empresa que exporta US$ 10 milhões ao ano poderá ter um impacto tarifário de até US$ 5 milhões, o que compromete a sustentabilidade do modelo de negócios atual. Software e serviços, ainda que menos dependentes de componentes físicos, também devem ser afetados por retração da demanda e maior dificuldade de repasse de custos ao cliente final.
Neutralidade geopolítica como diferencial
Apesar do cenário adverso, o documento destaca oportunidades estratégicas. As tarifas impostas pelos EUA à China chegam a 125%, o que pode abrir espaço para o Brasil como fornecedor alternativo — desde que o país invista em diferenciais competitivos, como capacitação da força de trabalho, produção de valor agregado e estabilidade institucional.
A Softex recomenda priorizar segmentos com vantagens já estabelecidas, como agtechs, fintechs e desenvolvimento de software personalizado. Também defende ações do governo para incentivo à exportação de software e semicondutores, além de reforço à diplomacia econômica, especialmente com blocos como União Europeia.
“A neutralidade geopolítica brasileira pode ser um ativo estratégico, mas isso depende de agilidade e articulação entre diferentes esferas”, afirmou Rayanny Nunes, coordenadora de novos negócios da Softex.
O estudo propõe que o Brasil se reposicione nas cadeias globais de valor com ações integradas entre empresas, governo e academia, inclusive por meio da ampliação de acordos comerciais fora do eixo EUA-China.
O documento, na íntegra, pode ser baixado aqui.
