Pirataria não é alternativa. É um alerta para a evolução do streaming
A pirataria continuará sendo um problema de segurança, de propriedade intelectual e de fiscalização. Mas também deve ser entendida como um sinal de que o mercado ainda precisa evoluir, opina Maurício Almeida
Maurício Almeida* – Durante muito tempo, a discussão sobre pirataria no audiovisual foi conduzida quase exclusivamente sob a ótica da repressão. E ela continua sendo necessária. A distribuição ilegal de conteúdo é crime, viola direitos autorais, enfraquece investimentos e compromete toda a cadeia da economia criativa.

Os números mostram a dimensão do problema. Segundo dados da Ancine e da Anatel, a pirataria gera prejuízos estimados em R$ 15 bilhões por ano no Brasil. Cerca de 34% dos brasileiros acima de 16 anos já consumiram conteúdo ilegal, enquanto o IPTV pirata movimenta um mercado que provoca perdas entre R$ 1,5 bilhão e R$ 2 bilhões anuais e alcança milhões de usuários.
Ao mesmo tempo, o combate vem se intensificando. O acordo firmado entre Ancine e Anatel resultou em centenas de operações contra serviços ilegais, com milhares de IPs e URLs derrubados, além da apreensão de equipamentos clandestinos.
Essas iniciativas são fundamentais. Mas, sozinhas, não resolvem o problema.
A pergunta que o setor precisa fazer é outra: por que, mesmo diante de uma oferta cada vez maior de plataformas legais, a pirataria continua encontrando espaço?
Parte da resposta está na forma como o mercado evoluiu.
Nos últimos anos, o streaming democratizou o acesso ao entretenimento, mas também fragmentou a experiência do consumidor. Filmes, séries, esportes e canais ao vivo passaram a ser distribuídos entre diferentes plataformas, cada uma com sua assinatura, interface e lógica de navegação. O resultado é um usuário que administra múltiplos aplicativos, diferentes formas de pagamento e custos cada vez maiores.
Nada disso justifica a pirataria. Mas ajuda a explicar por que soluções ilegais continuam sendo atraentes para parte do público. Elas não competem apenas pelo preço. Competem pela simplicidade.
Existe também um componente cultural que merece atenção. Muitos consumidores sequer percebem que estão utilizando um serviço ilegal. A venda de dispositivos e assinaturas piratas em marketplaces conhecidos cria uma falsa sensação de legitimidade, enquanto a facilidade de acesso faz com que a ilegalidade seja encarada, por alguns, como uma simples alternativa de consumo.
O impacto dessa escolha, porém, vai muito além das plataformas de streaming. Ele compromete produtores independentes, estúdios, artistas, equipes técnicas, desenvolvedores de tecnologia e toda uma cadeia econômica que depende de investimentos constantes para produzir novos conteúdos.
Por isso, combater a pirataria exige duas frentes complementares.
A primeira é continuar fortalecendo a fiscalização, a cooperação entre órgãos públicos e a responsabilização dos operadores de serviços ilegais.
A segunda, e talvez a mais estratégica para o futuro, é tornar a experiência legal significativamente melhor.
O consumidor não procura ilegalidade. Ele procura facilidade. Quanto mais integrada, intuitiva, personalizada e transparente for a experiência oferecida pelas plataformas legais, menor será o espaço para soluções clandestinas. Tecnologias baseadas em inteligência artificial, agregação de múltiplos serviços em um único ambiente e modelos híbridos de monetização caminham justamente nessa direção.
A próxima etapa da evolução do streaming não será determinada apenas pelo tamanho do catálogo ou pela quantidade de assinantes. Ela dependerá da capacidade da indústria de eliminar barreiras, simplificar o acesso e oferecer uma experiência superior àquela prometida pelos serviços ilegais.
A pirataria continuará sendo um problema de segurança, de propriedade intelectual e de fiscalização. Mas também deve ser entendida como um sinal de que o mercado ainda precisa evoluir.
Reprimir é indispensável. Inovar também.
*Maurício Almeida é presidente da Watch TV e líder do Conselho Antipirataria da ABOTTS.




