EUA promovem geração nuclear na América Latina como solução para gargalos de energia, inclusive em data centers

Missão da agência de desenvolvimento dos Estados Unidos aproxima governos latino-americanos de fornecedores de pequenos reatores para geração de energia nuclear; Brasil também é citado como mercado potencial para essas tecnologias.

A expansão da demanda por eletricidade na América Latina, impulsionada pela eletrificação da economia, pela digitalização e pelo crescimento esperado dos data centers, está levando os Estados Unidos a intensificar a promoção de tecnologias nucleares avançadas na região. A estratégia ganhou novo passo neste mês com uma missão organizada pela U.S. Trade and Development Agency (USTDA), que reuniu representantes de cinco países latino-americanos e caribenhos para discutir a adoção de pequenos reatores modulares (SMRs) e outras soluções nucleares civis.

A delegação foi composta por autoridades de Colômbia, Equador, El Salvador, Jamaica e Paraguai. Durante a visita aos Estados Unidos, os representantes participaram de reuniões com empresas, órgãos reguladores e instituições de pesquisa para discutir modelos de financiamento, marcos regulatórios, desenvolvimento da cadeia de suprimentos e tecnologias disponíveis para implantação de programas nucleares.

A presença dos países na missão mostram motivação vai além da diversificação da matriz elétrica. Em comum, eles apontam a necessidade de ampliar a oferta de energia firme para sustentar o crescimento econômico nas próximas décadas. No Paraguai, por exemplo, há preocupação com o consumo energético potencial dos data centers que o país deseja atrair, e que podem demandar mais do que a oferta atualmente disponível já em 2030.

Energia firme para novas cargas

A Colômbia apresentou um dos programas mais estruturados entre os participantes. Segundo a apresentação, o planejamento energético do país já considera a introdução de aproximadamente 300 MW de geração nuclear a partir de 2038, acompanhando o crescimento da demanda nacional por eletricidade. Entre os próximos passos estão a estruturação de mecanismos de financiamento, o fortalecimento da cooperação regional, treinamento de recursos humanos em parceria com organismos internacionais e fornecedores e apoio ao ciclo completo de implantação dos projetos nucleares.

O Equador também apresentou projeções de crescimento contínuo da demanda elétrica e indicou a necessidade de incorporar novas fontes de geração firme ao sistema, incluindo tecnologias nucleares de pequeno porte, como alternativa para garantir segurança energética no longo prazo.

Em El Salvador, o governo informou que concluiu a primeira etapa da revisão da infraestrutura nuclear conduzida pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), além de negociar com os Estados Unidos o acordo conhecido como Section 123, que estabelece a base jurídica para cooperação bilateral em usos pacíficos da energia nuclear. O país também destacou a criação da Oficina de Implementación del Programa de Energía Nuclear (OIPEN) para coordenar a implantação do programa nacional.

Já a Jamaica informou que prepara mudanças legislativas para permitir a implantação de usinas nucleares, pretende criar uma autoridade específica para o setor, transformar o ICENS em laboratório nuclear nacional e ampliar sua cooperação com instituições norte-americanas e canadenses. O país também estuda modelos de financiamento que incluam investidores estrangeiros na implantação e operação dos futuros empreendimentos.

As apresentações deixam claro que a USTDA e outras instituições norte-americanas estão atuando não apenas como promotoras comerciais, mas também como facilitadoras da estruturação dos programas nucleares na região.

Entre os apoios previstos aparecem treinamento técnico, articulação com fornecedores internacionais, apoio na estruturação do ciclo dos projetos e desenvolvimento de mecanismos de financiamento.

A estratégia busca posicionar empresas dos Estados Unidos como fornecedoras de tecnologias nucleares avançadas, especialmente pequenos reatores modulares, segmento considerado uma alternativa para países que não pretendem construir grandes usinas convencionais.

Brasil também aparece como mercado potencial

Embora o Brasil não tenha participado desta missão da USTDA, a apresentação distribuída aos participantes identifica o país entre os mercados latino-americanos com potencial para adoção de reatores nucleares compactos no futuro, ao lado de outras economias da região interessadas em diversificar sua matriz elétrica.

Nos últimos meses, o Tele.Síntese mostrou que a disponibilidade de energia passou a ser um dos principais fatores considerados na localização de novos data centers voltados à inteligência artificial. Empreendimentos desse tipo exigem fornecimento contínuo de eletricidade em grande escala, o que tem levado governos e empresas a buscar alternativas de geração firme para sustentar a expansão da economia digital.

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Da Redação

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