Data centers: uma agenda estratégica para o desenvolvimento do Brasil
Mais de R$ 3,7 trilhões em investimentos, mais de 230 mil empregos permanentes e uma nova indústria capaz de impulsionar a economia, avalia Luciano Fialho, da Scala Data Centers

Por Luciano Fialho* – Mais de R$ 3,7 trilhões em investimentos potenciais, mais de 230 mil empregos permanentes e uma nova indústria capaz de impulsionar diversos setores da economia. Poucas oportunidades de desenvolvimento apresentam um potencial dessa magnitude para o Brasil. É justamente esse o cenário revelado pelo Estudo de Potenciais Impactos Socioeconômicos da Consolidação do Brasil como Hub Internacional de Infraestrutura Digital na Era da IA, desenvolvido pela Fundação Getulio Vargas (FGV).
A IA está inaugurando uma revolução econômica. Assim como a eletricidade impulsionou a industrialização e a internet transformou a economia digital, a IA estabelece um novo paradigma em que a capacidade de processar dados se torna um diferencial competitivo entre as nações. Nesse contexto, a infraestrutura digital deixa de ser um tema restrito ao setor de tecnologia para assumir um papel estratégico no desenvolvimento econômico e na geopolítica mundial.
O estudo da FGV demonstra que o Brasil reúne características que poucos países possuem simultaneamente: uma matriz elétrica majoritariamente renovável, disponibilidade de energia em larga escala, capacidade de expansão territorial, localização privilegiada nas rotas internacionais de conectividade e um mercado consumidor robusto. Em um momento em que economias como Estados Unidos e diversos países europeus enfrentam limitações para expandir sua infraestrutura digital devido à escassez de energia e de áreas disponíveis, o Brasil passa a ocupar uma posição singular na disputa global por investimentos.
Os números mostram que essa oportunidade vai muito além da instalação de data centers. No cenário mais ambicioso analisado pela FGV, a ampliação da capacidade instalada de infraestrutura digital de aproximadamente 1 GW para 13,7 GW até 2035 pode atrair entre R$ 2,3 trilhões e R$ 3,7 trilhões em investimentos e criar mais de 230 mil empregos permanentes, sendo aproximadamente 60 mil diretos e 176 mil indiretos e induzidos, distribuídos ao longo de diversos segmentos da economia.
O estudo também traduz esses impactos para uma escala concreta. Um único data center para processamento de IA com capacidade de 100 MW gera efeitos na produção econômica na ordem de R$ 2,43 bilhões, na renda do trabalho de R$ 590 milhões e tem o potencial de criar 12,5 mil empregos diretos, indiretos e induzidos.
Mais significativo ainda é que cerca de 70% desses impactos econômicos acontecem fora do próprio setor de data centers. Isso significa que os benefícios se espalham por cadeias como construção civil, engenharia, telecomunicações, energia, logística, indústria de equipamentos, comércio e serviços especializados, reforçando que a infraestrutura digital deve ser compreendida como uma agenda de desenvolvimento econômico, e não apenas de tecnologia.
Mais do que atender à crescente demanda por processamento de inteligência artificial, a infraestrutura digital passa a exercer um papel semelhante ao desempenhado por rodovias, portos, aeroportos ou linhas de transmissão de energia. Ela se torna a base sobre a qual novos investimentos, novos negócios e novos empregos serão construídos nas próximas décadas.
Naturalmente, esse potencial não se concretizará de forma automática. O próprio estudo identifica a necessidade imediata de se estabelecer uma agenda prioritária para que o Brasil consolide sua posição como hub internacional de infraestrutura digital. Entre os principais pontos estão a ampliação da previsibilidade regulatória, a coordenação entre políticas energética, industrial e digital, a modernização dos instrumentos de incentivo aos investimentos, o fortalecimento da indústria nacional de hardware, além da formação de profissionais qualificados para atender uma demanda crescente por mão de obra especializada.
Esse movimento já começou. Um exemplo é a AI City desenvolvida pela Scala Data Centers, no Rio Grande do Sul, concebida como um campus para processamento de inteligência artificial. A iniciativa demonstra que o Brasil reúne energia, conectividade e capacidade de expansão para competir globalmente na nova economia digital.
O mundo vive uma corrida pela infraestrutura que sustentará a economia da IA. Os países que compreenderem essa transformação e criarem condições para receber investimentos serão aqueles que concentrarão inovação, cadeias produtivas de alto valor agregado, empregos qualificados e maior protagonismo econômico.
O Brasil reúne recursos naturais, disponibilidade energética, localização estratégica e capacidade de crescimento para ocupar esse espaço. O desafio agora é transformar essas vantagens em uma política de Estado capaz de atrair investimentos de longo prazo e posicionar definitivamente o país entre os protagonistas da nova economia digital.
Mais do que construir data centers, estamos diante da oportunidade de construir uma nova agenda de desenvolvimento para o Brasil. E oportunidades dessa dimensão não aparecem com frequência na história
* Luciano Fialho é vice-presidente Sênior da Scala Data Centers




