TCL: “Gemini será o cérebro das TVs da marca no Brasil”
Nikolas Corbacho, da TCL, antecipa a integração da IA do Google às TVs da marca e avalia desafios da TV 3.0 e do mercado corporativo.

A TCL prepara a integração do Gemini, do Google, ao sistema operacional de televisores compatíveis vendidos no Brasil. Segundo Nikolas Corbacho, gerente sênior de Produto da fabricante, a inteligência artificial não funcionará apenas como um aplicativo de consultas: terá acesso às funções do aparelho e poderá interpretar comandos em linguagem natural para ajustar imagem, som e outros recursos da TV.
“Pelo fato de a plataforma ser Google TV, o Gemini vai entrar como o cérebro da TV. Não será algo que eu precise abrir como aplicativo. Ele vai atuar em toda a interação com o televisor”, afirmou Corbacho em entrevista ao Tele.Síntese.
O executivo estima que a atualização possa chegar ao Brasil muito em breve, mas ressalva que o cronograma e a liberação do software são controlados pelo Google. A TCL ainda divulgará a relação dos aparelhos compatíveis, uma vez que a atualização exige determinadas configurações de hardware e memória.
Na entrevista, Corbacho também falou sobre a implantação da TV 3.0, a estratégia da TCL para o segmento corporativo e os efeitos do aumento dos custos dos componentes eletrônicos.
Tele.Síntese — Você comentou que “a IA vai mudar a interação com o televisor”. Como o Gemini será incorporado às TVs da TCL?
Nikolas Corbacho — Hoje temos uma parceria oficial com o Google. No nosso caso, a solução de IA será o Gemini. Isso já foi implementado nos Estados Unidos e deve ser implementado em breve no Brasil.
Como a plataforma é Google TV, o Gemini vai entrar como o cérebro da TV. Não será algo que o usuário precise abrir como aplicativo nem apenas uma interface que responde perguntas, ele terá interação real com o hardware do televisor. O usuário poderá dizer, por exemplo, que a imagem está escura ou que deseja cores mais vivas. O sistema entenderá e poderá modificar as configurações como contraste e brilho. Caso o resultado não agrade, será possível fazer ajustes, em uma conversa mais natural com a TV.
Hoje, o comando de voz precisa receber uma instrução muito específica, como “aumente o volume para 20”. Com a IA, o usuário poderá dizer que o som está baixo e pedir que seja aumentado. Essa interpretação da linguagem feita pelo Gemini muda a interação com o produto.
Tele.Síntese — Quando a atualização chegará ao Brasil?
Corbacho — O cronograma é do Google. A previsão inicial era que já estivesse disponível desde 1º de julho, mas houve um adiamento por questões técnicas do próprio Google. Minha estimativa é de que a implementação ocorra em, no máximo, 60 dias, mas pode ser antes.
Quando o Google liberar o novo software em seus servidores, os televisores compatíveis poderão receber a atualização do sistema operacional. A TCL divulgará posteriormente todos os modelos que terão suporte, porque existem requisitos específicos de memória e hardware.
Tele.Síntese — A incorporação do Gemini elevará o preço dos televisores?
Corbacho — Não, não pretendemos mudar o posicionamento dos produtos por causa dessa atualização. O hardware dos aparelhos lançados e dos novos modelos compatíveis já foi pensado para receber esses recursos, então no final será um benefício a mais para o consumidor.
A atualização não será usada como argumento para aumentar o preço. Também poderá beneficiar consumidores que já possuem televisores de gerações anteriores, desde que os modelos cumpram os requisitos técnicos.
TV 3.0 depende de infraestrutura e demanda
Tele.Síntese — Como a TCL avalia a implantação da TV 3.0 no Brasil?
Corbacho — O consumidor precisa primeiro entender o benefício. Hoje existe interesse das emissoras na implementação, mas ainda falta conectar essa discussão à ponta principal, que é o consumidor. Ele já tem uma TV com conversor digital, então precisa compreender o que ganhará com a TV 3.0. Pode haver melhor qualidade de transmissão, seleção de conteúdo e outros recursos, mas o benefício ainda não está totalmente claro para gerar uma demanda relevante.
Há também a questão da infraestrutura. Não adianta a TCL oferecer um televisor preparado para a TV 3.0 em uma região que ainda não dispõe do sinal. Embarcar essa solução exige uma placa adicional e outro receptor, o que agrega custo ao aparelho e pode onerar o consumidor sem que ele consiga utilizar o recurso.
Vejo duas frentes que precisam avançar: a infraestrutura das emissoras e o entendimento do consumidor. Quando houver cobertura e o benefício estiver claro, a integração da TV 3.0 poderá se tornar um diferencial para o fabricante.
Tele.Síntese — Você acredita que o consumidor aceitaria pagar mais pela tecnologia?
Corbacho — Quando entende o benefício, o consumidor está disposto a gastar. Isso já ocorre em linhas mais especificadas, como Mini LED e outras tecnologias de imagem. Para a TV 3.0, o caminho é o mesmo, mas ainda precisa amadurecer.
A TCL acompanha as discussões por meio das entidades de classe e se posiciona quando identifica propostas que possam criar barreiras ou impor a adoção obrigatória de uma tecnologia antes da disponibilidade da infraestrutura.
Linha de digital signage para o Brasil
Tele.Síntese — Qual é o peso do mercado corporativo para a TCL?
Corbacho — Nas vendas diretas, o percentual ainda é pequeno e está muito ligado a grandes empresas, principalmente redes hoteleiras, mas o mercado corporativo real é maior do que conseguimos mensurar. Muitos pequenos hotéis, restaurantes, empresas e centros comerciais compram diretamente por meio de distribuidores. A destinação do produto é o B2B, mas essa venda não aparece necessariamente como uma operação corporativa.
Também há um grande volume de televisores convencionais usados como digital signage. São aparelhos instalados em comércios para exibir menus, informações ou outros conteúdos. A TCL possui produtos profissionais dessa categoria no exterior, mas ainda estuda a viabilidade de introduzir uma linha específica no Brasil. Os equipamentos profissionais são projetados para aplicações como funcionamento contínuo, inclusive 24 horas por dia e sete dias por semana. Já uma TV convencional não foi projetada para esse tipo de utilização, reduzindo sua vida útil.
Custos, semicondutores e geopolítica no radar
Tele.Síntese — Como a TCL tem lidado com o aumento do custo dos componentes eletrônicos e as mudanças no cenário global?
Corbacho — O aumento do custo das memórias tem impactado praticamente toda a indústria eletrônica. Além disso, existem fatores como variações cambiais e questões geopolíticas que influenciam diretamente a formação dos preços dos produtos.
Não é um movimento exclusivo da TCL. Trata-se de um cenário que afeta diferentes fabricantes e categorias de eletrônicos. Em alguns casos, o consumidor acaba percebendo um aumento mais expressivo de preços, principalmente nos produtos de entrada, enquanto em categorias premium o impacto pode ser diluído pelas características e tecnologias embarcadas.
Quando definimos o posicionamento de um produto no mercado brasileiro, levamos em consideração diversos fatores, como custo dos componentes, câmbio, logística e a estratégia comercial da companhia.




