Copa de consolida streaming, mas desafio agora é econômico
Para a Abotts, transmissões da Copa do Mundo de 2026 demonstraram capacidade técnica e escala das plataformas digitais; mensuração integrada, latência e monetização permanecem como desafios

A Copa do Mundo de 2026 consolidou o streaming como parte estratégica da distribuição dos grandes eventos ao vivo, segundo avaliação da Abotts. Para a entidade, a competição confirmou uma transformação que já era esperada pela indústria audiovisual: a convivência entre televisão aberta, plataformas digitais, aplicativos e televisores conectados em um mesmo ecossistema.
A avaliação é que o streaming demonstrou possuir escala, infraestrutura e capacidade técnica para transmitir eventos de alcance global e reunir grandes audiências. O resultado, entretanto, não representa a substituição da televisão aberta, que manteve seu alcance e sua relevância na distribuição dos jogos.
“Não porque o streaming tenha substituído a televisão aberta, mas porque passou definitivamente a ocupar um papel estratégico na distribuição dos grandes eventos esportivos”, afirmou Yassue Inoki, presidente da Abotts.
Segundo ela, a competição também indicou uma mudança no comportamento dos usuários. Em vez de escolher exclusivamente entre televisão e streaming, o consumidor passou a acessar o conteúdo em diferentes plataformas e dispositivos, de acordo com disponibilidade, conveniência e experiência de uso.
TV conectada concentra consumo da CazéTV
Um dos principais resultados divulgados durante a competição veio das transmissões da CazéTV. De acordo com dados informados pelo YouTube, mais de 70% do tempo de exibição do canal durante a Copa ocorreu em televisões conectadas, as chamadas Connected TVs.
Para a Abotts, o indicador reforça a consolidação da TV conectada como ponto de encontro entre a experiência da tela grande e os recursos oferecidos pelas plataformas de streaming, como personalização, flexibilidade de acesso e publicidade orientada por dados.
O dado, no entanto, refere-se especificamente à CazéTV e não permite concluir que o mesmo padrão tenha sido registrado em todas as plataformas que transmitiram partidas. Também não existem informações consolidadas e diretamente comparáveis que permitam estabelecer um ranking entre YouTube, canais FAST e serviços de streaming.
A Abotts avalia que a ausência de métricas equivalentes representa um dos principais obstáculos para a análise do mercado. A televisão e as plataformas digitais adotam critérios distintos, incluindo número de pessoas, dispositivos conectados, alcance, visualizações e horas assistidas.
“Comparações simplificadas podem levar a interpretações equivocadas”, advertiu a entidade. A expectativa é que a experiência da Copa acelere o desenvolvimento de métricas cross-media, capazes de medir o alcance do conteúdo independentemente do dispositivo ou da plataforma utilizada.
Latência permanece como desafio técnico
A diferença de tempo entre a transmissão tradicional e a distribuição pela internet continuou sendo percebida durante os jogos. Segundo a Abotts, a latência ainda representa um desafio técnico para os serviços digitais, embora o público aceite algum atraso em troca de mobilidade, opções de acesso e recursos personalizados.
A entidade considera que a redução desse intervalo continuará entre as prioridades de plataformas e fornecedores de tecnologia. Ao mesmo tempo, avalia que o desempenho durante a Copa confirmou a capacidade do streaming de operar transmissões com elevada demanda simultânea.
Os próximos eventos ao vivo devem aprofundar o modelo multiplataforma, com distribuição simultânea em televisão aberta, streaming, Connected TV e aplicativos. A Abotts também espera avanços em publicidade baseada em dados, interatividade, comércio eletrônico e recursos de inteligência artificial.
Monetização no foco
Com a capacidade técnica demonstrada, a avaliação da Abotts é que o próximo desafio será econômico. A indústria precisará desenvolver modelos sustentáveis de monetização, rentabilidade, mensuração e compartilhamento de receitas entre detentores de direitos, emissoras, plataformas, anunciantes e fornecedores de tecnologia.
“O próximo desafio deixa de ser tecnológico. Passa a ser econômico”, resumiu a presidente da entidade.
Na avaliação de Inoki, o principal resultado da Copa foi retirar do centro da discussão a hipótese de substituição da televisão pelo streaming. “O consumidor não escolhe mais entre TV e streaming; ele escolhe a melhor experiência para assistir ao conteúdo que deseja”, afirmou.




