O que esperar da edição deste ano do MWC Barcelona
No maior evento de telecom do mundo, especialistas vão debater inteligência artificial, soberania tecnológica, infraestrutura automatizada, papel das teles no D2D e inovações quânticas

A edição de 2026 do Mobile World Congress (MWC) começa na próxima segunda, 2 de março, em Barcelona (Espanha), mas a agenda disponível já aponta quais tendências despontam como mais relevantes para indústria de telecomunicações. Este ano o assunto central não será nenhum G (como o 5.5G, 6G, ou 7G), tampouco melhorias no Wi-Fi ou apresentação de smartphones com qualidades inéditas.
Organizado pela GSMA, associação que reúne operadoras móveis de todo o mundo, o MWC 2026 deve consolidar uma mudança estrutural no posicionamento da indústria móvel. Mais do que discutir conectividade, o encontro em Barcelona tende a refletir um setor que passa a se definir por inteligência artificial embarcada, novos modelos de monetização, arquitetura de rede orientada a software e debates crescentes sobre soberania tecnológica.
Durante sessão preparatória promovida pela GSMA Intelligence na última terça, 24, o chefe da área, Peter Jarich, afirmou observou que inteligência artificial deve ocupar posição central dos debates e demonstrações. Além disso, se em edições anteriores o foco esteve na eficiência operacional e na redução de custos, agora a ênfase recai sobre geração de receita.
Tim Hatt, responsável por pesquisa e consultoria da GSMA Intelligence, lembrou que “no ano passado falávamos de IA em sua infância, principalmente como ferramenta para reduzir custos. Agora veremos muito mais sobre monetização e como alavancar capacidades de IA para gerar receita”. De acordo com ele, a proporção de iniciativas de IA voltadas à geração de receita nas operadoras dobrou em um ano, alcançando entre 25% e 30% dos projetos monitorados.
IA embarcada na arquitetura
Outra tendência apontada é a incorporação da inteligência artificial diretamente no desenho das redes. A expectativa é que a discussão avance da camada de aplicação para o nível arquitetural, com 5G Advanced entrando em ciclos mais concretos de implantação, integração entre redes terrestres e não terrestres e maior dependência de ambientes cloud-native.
Jarich observou que a indústria caminha para debates mais estruturais. “Estamos nos movendo para uma discussão sobre arquiteturas, não apenas tecnologias”, disse. A convergência entre nuvem, edge computing, automação e inteligência artificial tende a aparecer como diferencial estratégico entre operadoras e fornecedores.
Soberania tecnológica no centro do debate
O tema da soberania em inteligência artificial deve ganhar peso político. Radhika Gupta, responsável pela área de dados da GSMA Intelligence, alertou que o conceito vem sendo desgastado no mercado. “Soberania está sendo utilizada de forma muito solta no marketing atualmente. É preciso entender o que realmente conta como soberano”, observou.
Segundo ela, a soberania envolve diferentes camadas — dados, infraestrutura de processamento, modelos e governança. “O fator diferenciador principal aqui é a camada de controle”, disse. A expectativa é que formuladores de políticas públicas participem de maneira mais ativa das discussões, ampliando o diálogo entre reguladores e tecnólogos em Barcelona.
Satélite direto ao dispositivo e novas fronteiras
A conectividade direta via satélite para dispositivos móveis (D2D) deve deixar o estágio de testes e entrar em fase de implementação comercial. Segundo Hatt, “é hora da comercialização”, destacando que cerca de 70% das operadoras já possuem ao menos uma parceria com provedores satelitais.
O debate também deve incluir espectro, modelos de negócio e integração com redes terrestres, diante do avanço das constelações de órbita baixa.
Além disso, tecnologias quânticas devem aparecer com maior frequência na agenda, especialmente sob a ótica de segurança e infraestrutura crítica. Embora ainda em estágio inicial de adoção, o tema vem atraindo investimentos relevantes e atenção estratégica.
Monetização e responsabilidade
A edição de 2026 também deve reforçar a pressão por retorno sobre investimento em inteligência artificial, especialmente em aplicações empresariais como manutenção preditiva, prevenção de fraudes e digitalização industrial, segundo os analistas da GSMA.
Paralelamente, sustentabilidade, eficiência energética e inclusão digital devem permanecer como elementos estruturantes do debate no MWC, refletindo a necessidade de legitimação social da transformação tecnológica.
Segundo o diretor de estratégia da GSMA, Hakan Dursun, os movimentos em curso “descrevem uma indústria que está se movendo da conectividade para a inteligência, para a responsabilidade e para a reinvenção”.



