Guilhotina regulatória ameaça projeto do NIC.br para uso dos whitespaces

Iniciativa baseada em TV White Spaces entra em fase de testes de campo, mas pode ser inviabilizada com eventual guilhotina regulatória da Anatel

O Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br) alertou para o risco regulatório enfrentado pelo projeto que utiliza canais livres de televisão para oferta de acesso à internet, baseado na tecnologia conhecida como TV WhiteSpaces (TVWS), chamado de Fique Espectro.

A preocupação foi apresentada por Gilberto Zorello, coordenador de projetos do NIC.br, na Semana de Infraestrutura da Internet no Brasil, que acontece em São Paulo. Ele detalhou o andamento da iniciativa e os impactos da proposta da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) de revogar a Resolução nº 747, publicada em 2021, que autoriza esse tipo de operação no Brasil.

Segundo Zorello, o projeto foi concebido para ampliar a inclusão digital em áreas rurais e remotas, a partir do uso de canais de TV de 6 MHz que não estão ocupados em determinadas regiões do país. “A ideia é utilizar canais de TV que não são utilizados pelo Brasil, e para aumentar a inclusão digital”, afirmou. De acordo com ele, cada canal de 6 MHz permite taxas de transmissão em torno de 25 Mbps, e a agregação de múltiplos canais pode elevar significativamente a capacidade do enlace.

Operação em caráter secundário

O TVWS opera em caráter secundário, sem interferir no serviço primário de radiodifusão. “Quem é dono da faixa de frequência é operador de TV”, explicou Zorello. Caso um novo serviço de TV passe a ocupar um canal antes livre, o sistema é obrigado a migrar automaticamente para outro canal disponível.

A arquitetura da solução inclui uma radiobase conectada à internet e integrada a uma base de dados georreferenciada, que replica informações da base da Anatel sobre estações de TV, como localização, potência e diagrama de radiação das antenas. O sistema utiliza rádios cognitivos, capazes de detectar ocupação do espectro e evitar interferências, além de mecanismos de sensoriamento que permitem sinalizar eventuais conflitos.

Fases do projeto e testes em campo

O projeto passou por três etapas: prova de conceito, desenvolvimento em laboratório e implementação de protótipos. Na fase atual, o NIC.br prepara testes de campo em Quixadá (CE), com a instalação de uma radiobase na Universidade Federal do Ceará (UFC) e terminais de usuário em escolas rurais da região. “Nós estamos hoje com o sistema a nível de protótipo funcionando, rodando”, disse Zorello.

A iniciativa também mapeou diferentes aplicações potenciais, como atendimento a comunidades remotas com banda larga móvel, escolas, serviços de saúde e atividades do agronegócio, aproveitando as características de propagação das frequências mais baixas utilizadas pelos canais de TV. Além do NIC.br, participam do desenvolvimento da tecnologia o Inatel, a UFC, com financiamento do governo do Reino Unido.

Guilhotina regulatória e consulta pública

O principal risco apontado pelo NIC.br ao futuro da iniciativa é o processo de revisão normativa conduzido pela Anatel, conhecido como guilhotina regulatória, que propõe a revogação de resoluções consideradas obsoletas. Entre elas está justamente a Resolução nº 747, que viabiliza o uso de dos canais de TV ociosos (whitespaces). “Sem essa regulamentação, não pode ser utilizado o TVWS no Brasil”, alertou Zorello.

O NIC.br apresentou contribuição à consulta pública defendendo a manutenção da norma, argumentando que a tecnologia tem relevância social, embasamento técnico e potencial para reduzir a dependência de soluções via satélite em regiões remotas. Zorello também ressaltou que o TVWS opera de forma compatível com a futura TV 3.0, por atuar em caráter secundário, sem interferência no serviço primário.

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Rafael Bucco

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