Google condiciona investimentos globais em IA no Brasil à segurança jurídica
Executivo afirma que parte dos US$ 186 bilhões previstos pelo Google em investimentos globais depende de estabilidade regulatória no país; empresa cita IA para agro, energia e minerais críticos
O presidente do Google Brasil, Fábio Coelho, afirmou que a capacidade do país de atrair investimentos em inteligência artificial (IA), infraestrutura digital e data centers dependerá diretamente da estabilidade regulatória e da previsibilidade jurídica oferecida pelo ambiente brasileiro. A declaração foi feita nesta quinta-feira, 28, durante painel de abertura do Brasília Tech Summit, que reuniu representantes do Congresso, Ministério Público e big techs para discutir regulação da economia digital.

Segundo o executivo, o Google prevê investir US$ 186 bilhões globalmente em 2026 — cerca de R$ 1 trilhão, considerando o câmbio aproximado de R$ 5,38 por dólar — e parte relevante desses recursos pode ser direcionada ao Brasil, desde que o país mantenha regras claras para o setor digital.
“O Google vai fazer um investimento de capital ao redor do mundo de 186 bilhões de dólares esse ano. Isso é um trilhão de reais. Quanto disso vem para o Brasil? Depende fundamentalmente de a gente ter estabilidade no nosso modelo, que tem a ver com a segurança jurídica, das regras claras”, afirmou Coelho.
A fala ocorre em meio ao avanço do debate regulatório sobre inteligência artificial na Câmara dos Deputados. Durante o mesmo painel, o presidente da Câmara, Hugo Motta, afirmou que trabalha com a apresentação do relatório do deputado Aguinaldo Ribeiro sobre IA no próximo dia 9 de junho e defendeu a votação da proposta ainda este ano.
Regulação e investimentos
Fábio Coelho defendeu uma regulação “ponderada”, baseada em diálogo com sociedade, Congresso e empresas, nos moldes do que ocorreu com o Marco Civil da Internet e a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).
“Nós estamos a favor do processo regulatório, um processo regulatório bem construído, como foi bem construído o Marco Civil, a LGPD”, disse.
O executivo afirmou que um ambiente excessivamente restritivo pode afetar decisões globais de alocação de capital. Segundo ele, o debate internacional sobre IA ocorre em um momento de disputa global por infraestrutura digital, data centers e capacidade computacional.
“A questão da inteligência artificial é um elemento de criação de diferenciais competitivos tão grande […] que a gente tem que criar as condições para trazer mais investimento para cá”, afirmou.
Coelho também citou a necessidade de um modelo regulatório que combine regulação, autorregulação e corregulação, sem “fechar demais a mão” sobre o setor.
IA para agro, energia e minerais críticos
Fábio Coelho também defendeu o uso da inteligência artificial como ferramenta para impulsionar setores estratégicos da economia brasileira, especialmente agricultura, energia e mineração.
Segundo ele, o Google já discute projetos de IA voltados ao aumento de eficiência do sistema energético nacional, incluindo aplicações para reduzir o chamado “curtailment”, fenômeno que limita o aproveitamento da geração elétrica.
“A gente discute como usar inteligência artificial na agricultura, […] melhorar o grid energético nosso e reduzir aquele fenômeno conhecido como curtailment”, declarou.
O executivo também mencionou o potencial brasileiro em minerais críticos e terras raras, apontando que o país possui cerca de 20% das reservas mundiais desses materiais. Segundo ele, a IA pode apoiar projetos industriais e tecnológicos ligados à exploração desses recursos.
“A gente discute a questão de minerais críticos, de terras raras. O Brasil tem quase 20% das reservas mundiais de terras raras”, afirmou.
Data centers e ReData
As declarações ocorreram em um momento em que o setor pressiona o Congresso pela retomada do debate do ReData, regime tributário especial voltado a data centers e infraestrutura digital.
Durante o painel, Hugo Motta afirmou que o Brasil reúne condições favoráveis para atrair investimentos em data centers por contar com energia renovável, disponibilidade hídrica e mercado consumidor relevante. O presidente da Câmara defendeu que o debate sobre IA avance junto com medidas de estímulo à infraestrutura digital.
O tema é considerado estratégico pelo setor de TICs diante da crescente demanda global por processamento de IA, armazenamento de dados e expansão de nuvens computacionais.




