Energia renovável brilha nas agendas das teles brasileiras

A adoção de boas práticas ambientais cresce entre as teles brasileiras. Ao optar por geração de energia renovável, as empresas também têm redução de custos.
Teles no caminho da energia renovável - Crédito: Freepik
Crédito: Freepik

Por Roberta Prescott

A adoção de boas práticas ambientais cresce entre as teles brasileiras. Ao optar por geração de energia renovável, as empresas também têm redução de custos e vantagens no mercado financeiro.

“Ainda é possível mudar 2030.” Com esse slogan, a Organização das Nações Unidas (ONU) chama a atenção para que os países cumpram os 17 ambiciosos e interconectados Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), estabelecidos entre os 193 Estados membros da ONU, incluindo o Brasil. Trata-se da chamada Agenda Pós-2015, considerada uma das mais ambiciosas da história da diplomacia internacional. Trata-se também de um apelo global à ação para acabar com a pobreza, proteger o meio ambiente e o clima e garantir que as pessoas, em todos os lugares, possam desfrutar paz e prosperidade.

Atualmente, sob o guarda-chuva de ESG, companhias de diversos países estabeleceram políticas e definiram metas para seus impactos ambientais, sociais e de governança. No setor de telecomunicações, a contratação de energia de fontes renováveis, ações para diminuição de resíduos e da pegada de carbono, além de fomento à economia circular e ao recolhimento de lixo eletrônico têm pautado as corporações — seja do lado das prestadoras de serviços de telecomunicações, seja dos fornecedores e da indústria, que vêm ampliando a eficiência e a sustentabilidade das redes.

Fontes diversificadas

Entre as operadoras, vigoram o estabelecimento de metas de redução de consumo e a contratação de energia limpa. O que determina o tipo de solução é o perfil de consumo; e a estratégia muda se é energia de alta ou baixa tensão. Por exemplo, para abastecer as lojas ou antenas, usa-se baixa tensão. Quando se trata de alta tensão, pode-se comprar no mercado livre, quando o cliente tem a opção de negociar suas condições (preço, prazo, volume de energia) diretamente com o fornecedor ou por meio de uma empresa especialista que o represente. Neste modelo, é possível escolher o fornecedor e assegurar a fonte de energia para que seja limpa e renovável.

A Vivo tem parceria com fornecedores de energia solar (que responde por cerca de 60% do total), hídrica (30%) e biogás (10%). A telco não tem parceria com parques eólicos, mas compra certificados de energia renovável I-RECs (International Renewable Energy Certificates) que usam esta fonte. “Quando evoluímos e migramos para fontes renováveis reduzimos em 76% as emissões de gases de efeito estufa”, disse Caio Silveira Guimarães, diretor de patrimônio da Vivo, cuja matriz, o Grupo Telefônica, estabeleceu, em 2015, metas globais de redução de consumo e de adoção de energia renovável.

Geração de empregos

O objetivo é chegar a 2030 com 100% de energia renovável, mas o Brasil atingiu isso bem antes: em 2018, segundo Guimarães. Outra meta é, em 2025, ter reduzido em 90% o consumo de energia elétrica por dados trafegados em comparação a 2015. “Em 2021, chegamos a 87%”, contou o executivo. Em 2018, a Vivo tinha por volta de 26% de toda a energia consumida oriunda de fonte renovável e isso se dava, principalmente, por contratações feitas no mercado livre para alta tensão e eram completadas com a compra de I-RECs. A partir de 2018, a Vivo se focou em projetos de baixa tensão, por meio de usinas solares, hídricas e de biogás, para, no fim de 2023, conseguir atender a 90% de seus pontos.

“Estas usinas nascem com atributo renovável e vão gerar 250 empregos diretos e 800 indiretos; é um impacto local de mil empregos sendo gerados”, destacou.

Em julho, a Vivo inaugurou, em parceria com o Grupo Gera, duas usinas solares no modelo de geração distribuída, nos municípios de Itabaiana e Lagarto (SE). Juntas, elas irão produzir 860 MWh/ano e abastecer 280 unidades consumidoras da empresa na região. A iniciativa faz parte do projeto da Vivo para implantar 85 usinas de fontes solar, hídrica e de biogás, em todo o Brasil, sendo que delas 33 já estão em operação.

No caso das usinas, os modelos de negócios normalmente são por meio de contratos de arrendamento, com o compromisso, por parte da operadora, de consumir a energia gerada.

Ampliando a energia limpa

Do total de consumo de energia elétrica da Claro, cerca de 70% vêm das fontes renováveis, principalmente, de solar e eólica. A telco conta com 70 usinas e pretende, até o fim de 2022, chegar a 77 usinas e aumentar para 103 em meados 2023. Assim, teria 80% do uso oriundo de fontes renováveis, ficando 20% nas contas tradicionais.

“Um terço de toda carga que precisamos está no mercado de média tensão, que permite que eu contrate energia elétrica no Brasil inteiro, independentemente da geografia. “Então, posso estar no Sudeste e comprar energia do Nordeste”, explicou Hamilton Silva, diretor de infraestrutura da Claro. A média tensão abastece prédios, data centers e uplinks satelitais e para tanto a Claro tem feito uso de energia eólica. São 14 usinas eólicas no Nordeste, segundo Silva, 14 torres gigantes de geração eólica na Bahia que abastecem cargas no Brasil, principalmente, no Sudeste.

Dois terços da carga estão em baixa tensão e representam a energia elétrica usada para abastecer as antenas da rede móvel — aproximadamente 30 mil ERBs no Brasil todo — e para abastecer a rede fixa — baterias, fontes para alimentar a rede etc. Neste caso, a geração de energia elétrica tem de ser local, ou seja, estar próxima de onde se usa a carga. “A maior parte da insolação brasileira está do Sudeste para cima. Temos pequenas usinas hidrelétricas em Santa Catarina e usinas de biogás em São Paulo”, informa Silva.

Entre os resultados obtidos pela Claro, o diretor de infraestrutura comentou que o primeiro deles é a blindagem com relação às bandeiras tarifárias de energia elétrica, porque o custo independe da bandeira, o que dá maior previsibilidade do consumo e dos gastos. Do lado da economia, a telco calcula que, fazendo a geração própria de energia elétrica, obtém algo superior a R$ 100 milhões por ano de economia. Além disso, esses tipos de geração têm baixa pegada de carbono. “Isso ajuda a não emitir CO² na atmosfera. No acumulado do programa, desde 2016 até o fim de 2022, calculamos que teremos evitado algo entre 350 mil e 470 mil toneladas de CO², ou seja, que não foram jogadas na atmosfera. A meta da ONU é 454 mil toneladas no fim de 2024 e nós vamos superar isso, porque a estimativa é evitar 540 mil toneladas”, adiantou Hamilton Silva.

Biosite movido a energia eólica

Em fevereiro deste ano, a TIM inaugurou em Pipa, no Rio Grande do Norte, sua primeira antena (biosite) movida a energia eólica. A operadora investiu na implantação do site movido a energia renovável para ampliar e reforçar a cobertura da rede 4G na localidade, situada a 77 quilômetros da capital Natal e servirá em breve para testes também da tecnologia 5G. A instalação da torre foi executada em parceria com AlfaSite. Do ponto de vista técnico, a antena da TIM é diferente das torres eólicas tradicionais, porque as pás são posicionadas na vertical, no topo do poste metálico.

Isso garante que o movimento seja mais silencioso e eficiente, além de causar menor impacto visual. Por trás do exemplo de Pipa, há um projeto de energia que se iniciou em 2017 com usinas de geração distribuída e que foi ganhando fôlego nos anos seguintes. Em março, a TIM anunciou que atingiu 100% de energia limpa em seu consumo total, fruto da sua planta de usinas — 46, espalhadas por 19 Estados e Distrito Federal, aquisição no mercado livre e compra de certificados de energia renovável. Em dezembro, a TIM havia alcançado 83% da energia consumida vinda de fontes renováveis. A marca de 100% de energia limpa foi possibilitada pela aquisição de certificados de energia renovável. Cada certificado garante que 1 MWh foi injetado no sistema interligado nacional a partir de uma fonte de geração de energia renovável.

De acordo com Bruno Gentil, vice-presidente de recursos corporativos da TIM, a operadora formalizou novas parcerias e, até o fim de 2022, deve chegar a 77 usinas para consumo próprio, com geração de 38,2 GWh mensais, o suficiente para abastecer 19 mil antenas. Com essa ampliação, a TIM terá usinas em 24 Estados e no Distrito Federal. A maior parte das unidades será de produção de energia solar (65 delas), mas também haverá espaço para usinas hídricas (7), de biogás (3) e de gás natural (2).

“A TIM está na pauta de ESG há muito tempo”, destacou Gentil. Movida pela aspiração de “ser uma referência ESG no Brasil”, a TIM atualizou seu Plano ESG 2022-24, com metas e compromissos ambientais, sociais e de governança, tais como, até 2025, ser uma empresa carbono neutra nos escopos 1 e 2, manter 100% do consumo de energia elétrica de fontes renováveis e reciclar pelo menos 95% dos resíduos sólidos. Há também metas para social e governança. A adoção de usinas segue um propósito de colocar a corporação aderente às práticas ESG e de controlar e fazer a gestão dos custos de energia.

“O setor de telecom não é um grande agressor ao meio ambiente, mas é um grande consumidor de energia”, apontou Gentil. Para isso, a TIM foca em três pilares: investimentos em geração distribuída, compra no mercado livre de fontes renováveis e limpas e ações de economia. “A ideia é sempre aumentar ao máximo a geração distribuída e mercado livre, mas em mercado livre chegamos ao máximo praticamente”, ponderou o VP.

100% renovável

Na Oi, o plano é garantir que, até 2025, toda energia que a companhia usa seja oriunda de fontes renováveis. “Dentro da matriz energética atual, temos um percentual adquirido do mercado livre e de usinas de geração. Esperamos, até o fim de 2022, ter mais de 80% da nossa energia elétrica sendo adquirida de fontes renováveis e contar com 35 usinas conectadas à nossa planta. Em 2021, tínhamos pouco menos de 50%. E, ao fim de 2025, a ideia é atingir 100%”, detalhou Daniel

Junqueira Pinto Hermeto, responsável pela área de suporte ao negócio da Oi. As usinas, em contratos de comodato, geram investimentos indiretos que, neste ano, devem ser em torno de R$ 300 milhões a R$ 400 milhões. “A principal vantagem ao contratar é que eu conheço a fonte geradora de energia e estou estimulando o consumo de fontes renováveis e seguras”, completou Hermeto. A Oi também compra certificados.

À luz do volume de energia elétrica adquirido anualmente pela Oi – e que tende a diminuir com venda da operação móvel e com o spin-off da parte de torre –, a telco está testando a venda do excedente a clientes. O projeto está em fase piloto.

“Adquirimos R$ 1 bilhão em energia elétrica, é a demanda contratada por nós e isso nos permite vender energia para clientes da Oi. Começamos o piloto em Minas Gerais e devemos expandir para outros Estados através da Oi Soluções”, contou Hermeto. A Vivo também trabalha para levar a cabo projeto semelhante.

Caminho sem volta

Não basta apenas comprar energia elétrica de fontes limpas. É preciso também tomar medidas para que o consumo não aumente — uma tarefa complexa. “Temos vários projetos voltados para eficiência de consumo, como a substituição de equipamentos de iluminação — trocamos 120 mil lâmpadas —, substituição de maquinários de alto consumo e a modernização de equipamentos”, disse Hermeto, da Oi. Como exemplo, ele citou que, em 2021, a telco aumentou em 48% o uso de água subterrânea e de reaproveitamento de chuvas, na comparação com 2020. A Vivo conta com iniciativas que vão do desligamento de tecnologias e equipamentos obsoletos, como os de redes 2G e 3G; otimização de centrais; e aquisição de equipamentos que trazem embarcados recursos de economia de energia e telemetria para aferição em tempo real do consumo. A Vivo também está em sua jornada para computação em nuvem que leva à redução do consumo por não ter armazenamento em servidores in house. Mas, principalmente, a companhia incorporou em seu processo de aquisição de equipamentos um olhar que engloba no custo total de propriedade (TCO) todo o ciclo de vida dos produtos, incluindo o consumo de energia.

A TIM também passa por jornada de migração para nuvem e incorporou preocupações com pegada de carbono. “O tema de ESG é muito amplo aqui dentro; está na nossa primeira linha de atenção e no plano estratégico”, enfatizou Gentil. Ele adiantou que existem vários programas acontecendo nos próximos anos. Seja para estar em conformidade com metas globais, seja por iniciativa das próprias companhias, o fato é que os compromissos ambientais vieram para ficar. Mesmo que tenham começado como algo que era “bom ter”, atualmente, assumir tais objetivos passou a ser condição sine qua non que deve estar embarcada em ESG. “Quem não tiver estas políticas e esta governança está fora”, ressaltou Guimarães.

Envolvimento é essencial

Isso porque os clientes estão atentos e tendem a preferir empresas que assumam responsabilidades. O movimento pode até ser puxado por grandes corporações, contudo, cedo ou tarde, ele vai permear a cadeia toda. Nesse caminho, cabe aos grandes players servirem de bússola. Até porque, pelas próprias políticas de compras, não haverá, em um futuro não distante, espaço para fornecedores que não estiverem em conformidade com boas práticas ambientais.

“Não é opção; está no dia a dia e vamos puxar para junto de nós aqueles que precisam implantar programas, trazendo o ecossistema e também levando aos clientes”, assegurou Guimarães. O envolvimento na cadeia e no ecossistema é essencial, contou Bruno Gentil. “A maioria dos nossos 50 maiores parceiros e fornecedores trata o tema de ESG na primeira linha de preocupações.

Hamilton Silva, da Claro, explicou que a telco tem avançado nas três frentes da sigla ESG, com políticas de governança sendo implementadas, uma série de ações sociais com movimentos para atendimento aos mais necessitados e com diversas iniciativas ambientais, sendo as relacionadas à energia as mais representativas. Há ainda programa de reciclagem por meio do qual recebem equipamentos eletrônicos em desuso e dão tratamento de descarte, além de retirar equipamentos nos clientes para dar o descarte adequado do material e fazer o mesmo quando há sobra de cabos na construção de redes.

Uma preocupação de todos

Estabelecer melhores práticas sociais, ambientais e de governança e metas a curto, médio e longo prazos não está apenas na agenda das grandes operadoras. Entre as regionais, ESG também veio para ficar. Na Um Telecom, a diretora de marketing, Raquel Scarano, contou que, apesar de o grupo de sócios terem uma visão bastante direcionada a ESG e terem contratado pessoas que compartilhavam a mesma visão, as ações estavam isoladas. “No ano passado, fizemos uma avaliação e vimos que havíamos feito muita coisa, mas não tínhamos tudo consolidado. Precisávamos transformar em processos”, explicou.

Foi assim que começou o mapeamento, cadastro, análise e estratificação dos processos. A maior formalização levou também a uma visão mais clara das ações, com perspectivas claras. “Cultura é hábito e hábito é frequência”, ressaltou a executiva, explicando que, para dizer que a cultura ESG está implementada de fato, existem várias etapas a serem seguidas. Hoje, a Um Telecom está na fase de levantamento e no processo de contratação de consultoria para implementação.

Dentro disso, em 2020, a telco começou a desenvolver um projeto de eficiência energética, que foi tirado do papel em 2021. “A ideia era ter a energia elétrica verde. Implantamos uma usina solar no município de São Caetano, no interior de Pernambuco, com capacidade para fornecer 100mil kWh/mês, mas temos espaço para dobrar a capacidade de produção. O projeto inicial vai atender cerca de 80% do consumo da companhia”, afirmou Adilson Gadelha, diretor de supply chain da Um Telecom.

A quantidade de quilowatts-hora gerada equivale a não emissão de 120 toneladas de carbono por ano, segundo Gadelha. A usina foi homologada pela concessionária e, em setembro deste ano, esperava visita de segurança para, enfim, começar a produzir. “A ideia principal é a preocupação com o meio ambiente, mas a questão de custos vem agregada”, detalhou.

No médio e longo prazos, Raquel Scarano disse que a construção de data center comercial tier 3 demanda que haja fontes de energias elétrica. “A Um Telecom vai passar a consumir mais energia quanto mais racks, mais servidores tivermos. Sabendo que nosso consumo vai aumentar, temos de pensar meios de consumo de energia limpa também”, destacou.

Leia todas as notícias sobre o principais mercados de 2022 e tendência de 2023 na edição do Anuário Tele.Síntese Inovação 2022 aqui. 

 

 

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