Economia fraca trava o DTH. Mas Claro e Sky acreditam em retomada

Vivo defende aproximação com OTTs. Algar vê com preocupação venda direta de canal linear pelo programador.

As operadoras de TV paga brasileiras creditam erosão de sua base de clientes à situação macroeconômica, e não aos competidores over-the-top (OTT), como Netflix. Para as empresas, houve nos últimos anos evasão dos clientes de menor poder aquisitivo, principalmente da classe C. Estes, diante do aperto financeiro e do desempregado, tiveram de escolher entre ter banda larga e celular, ou TV paga.

“É mais um problema de capacidade de consumo do que de hábito. É conjuntural: a renda caiu”, defende Rodrigo Marques, vice-presidente de estratégia da Claro Brasil. Ele participou hoje, 30, do Pay TV Forum, evento que acontece em São Paulo.

Estudo da LCA Consultores corrobora a visão de que a situação macroeconômica tem reflexos sobre o consumo das famílias, principalmente na classe C. Conforme os dados levantados pela empresa, houve uma retração do PIB per capita no Brasil da ordem 8% entre 2013 e 2018. “Estimamos que o país vá retornar ao mesmo patamar de PIB per capita apenas em 2023, no melhor dos cenários”, diz a consultora Claudia Viegas. Para ela, o setor de TV paga poderá voltar a crescer caso a economia também esquente e aumente a confiança do consumidor.

DTH

A Claro TV foi o serviço que mais desligou acessos em DTH no período. Mas a empresa aposta na retomada da economia para voltar a atrair clientes para a tecnologia. “A gente não tem interesse em encerrar o DTH. O DTH de fato vai demorar para se revigorar, mas existem regiões e nichos em que é a melhor tecnologia. Onde não temos rede fixa, é a melhor forma de atender o consumidor de TV”, acrescenta Marques.

A segunda maior operadora de TV paga explora justamente o DTH, sem alternativas em infraestrutura fixa, como acontece com a Claro. Não à toa Sérgio Ribeiro, vice-presidente de operações e comercial da Sky, diz que a aposta da companhia recai sobre a atração dos usuários da banda C. Estes usam antenas parabólicas para sintonizar canais abertos de TV.

A Sky vem criando pacotes para atender a especificidade desse público. “São 20 milhões de pessoas na banda C hoje no Brasil. Então acredito que o DTH ainda tem muito para dar. Acho que o cenário macroeconômico é fundamental para todo o processo”, afirma.

OTTs

As operadoras minimizam o impacto que a competição de OTTs pode ter sobre o cancelamento de usuários. A Vivo, por exemplo, diz que tem o objetivo de fechar parcerias com o máximo possível delas a fim de ser vista como um centro de conteúdo para os usuários.

“Dentro da nossa plataforma IPTV temos parcerias com integração da Netflix dentro da plataforma, e até o final do ano vamos integrar outros parceiros”, afirma Maria Claudia Ornellas, diretora de transformação e experiência do cliente da Vivo.

A operadora aposta na distribuição dos canais usando a tecnologia IP. Além de usar IPTV através da infraestrutura em FTTH para clientes de banda larga fixa, a tele também distribui o aplicativo Vivo Play, que traz canais lineares que podem ser acessados pelo assinante de TV da operadoras.

“A gente entende que o cliente quer variedade e qualidade de conteúdo, por isso fazemos parcerias. Não vemos necessidade de conteúdo exclusivo”, acrescenta. A tele tem ainda uma base de usuários em DTH, mas o serviço já não é mais vendido. Segundo ela, não existe também previsão para encerrar o serviço.

A Algar, por sua vez, enfrenta o desafio da escala. A operadora foca o mercado do Sudeste, em especial, de Minas Gerais, onde atua também como concessionária de telefonia fixa. No caso, a empresa sete a dificuldade em negociar com as programadoras contratos para a distribuição do conteúdo. Por isso a empresa critica o movimento da Fox de vender canais lineares sem um distribuidor. “Quando a gente vê o produtor de conteúdo vendendo direto ao consumidor final com preocupação porque o distribuidor é ejetado dessa cadeia”, observa Márcio de Jesus, diretor de varejo da Algar Telecom.

Em um ponto, todas as operadoras concordam. A retomada do crescimento exige investimento na interface e facilidade de uso. “O consumidor não percebe o benefício econômico das composições de planos com acesso a OTTs. Mas percebe o benefício de uma experiência de uso mais bem elaborada”, acrescenta Jesus.

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Rafael Bucco

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