Cidades inteligentes exigem mais que conectividade, avaliam líderes do setor
Debate aponta que infraestrutura, tributação e qualificação profissional são os principais entraves à digitalização das cidades brasileiras

A expansão da conectividade deixou de ser o principal desafio para a construção de cidades inteligentes no Brasil. A avaliação foi compartilhada por lideranças empresariais, associações setoriais e especialistas que participaram da Assembleia de Líderes pelo Futuro das Cidades, realizada nesta terça-feira, 16, durante o Smart City Business Brazil Congress 2026, em São Paulo.
O encontro reuniu representantes do setor de telecomunicações, tecnologia, infraestrutura e gestão pública para discutir prioridades para o desenvolvimento urbano e consolidar contribuições para a Declaração de Líderes pelo Futuro das Cidades, documento que deverá reunir recomendações para futuras políticas públicas e iniciativas do setor.
O consenso entre os participantes foi de que o país avançou significativamente na oferta de conectividade nos últimos anos, mas ainda enfrenta obstáculos para transformar essa infraestrutura em aplicações urbanas de larga escala.
“Hoje nós temos um Brasil conectado. O Brasil tem internet móvel e fibra óptica em praticamente todo o país. A oferta do serviço chega. Mas por que as soluções não vêm?”, questionou Marcos Ferrari, presidente executivo da Conexis Brasil Digital e mediador da discussão ao abrir os debates.
Infraestrutura urbana continua sendo gargalo
Um dos principais temas abordados foi a dificuldade de adaptar cidades que cresceram sem planejamento para suportar a infraestrutura necessária à digitalização de serviços urbanos.
O presidente executivo da TelComp, Luiz Henrique Barbosa, afirmou que o custo das intervenções urbanas necessárias para modernizar redes de telecomunicações e outros serviços pode alcançar valores elevados em áreas densamente ocupadas.
Segundo ele, o enterramento de redes em São Paulo chega a custar cerca de R$ 4 mil por metro, o equivalente a aproximadamente R$ 4 milhões por quilômetro em algumas regiões da cidade.
Barbosa defendeu que conectividade, energia, saneamento, mobilidade e demais utilidades urbanas passem a ser planejadas de forma integrada desde a concepção de novos bairros e empreendimentos. “Para colocar a infraestrutura do futuro, ela precisa ser ampla e robusta. E isso exige uma cidade planejada”, afirmou.
Conectividade passa a ser infraestrutura crítica
A presidente da Virtueyes, Taize Wessner, destacou que a conectividade deixou de ser apenas um serviço de telecomunicações para se tornar parte essencial da operação das cidades.
Segundo ela, sistemas de videomonitoramento, cercamento eletrônico, semáforos inteligentes e sensores urbanos dependem diretamente da disponibilidade das redes. “Conectividade passa a ser o sistema nervoso das cidades inteligentes”, afirmou.

A executiva citou episódios recentes de vandalismo contra redes de telecomunicações para ilustrar os riscos associados à interrupção desses serviços.
“Quando ela para, câmeras deixam de funcionar, o cercamento eletrônico para de operar e a cidade fica vulnerável”, disse.
Segundo Wessner, a discussão sobre cidades inteligentes precisa incorporar também estratégias de resiliência operacional para situações de falha ou indisponibilidade das redes.
Dependência tecnológica preocupa setor
Outro ponto recorrente no debate foi a dependência brasileira de equipamentos e plataformas desenvolvidos no exterior. Taize Wessner observou que os principais equipamentos utilizados em projetos de cidades inteligentes são importados, especialmente da China, realidade que, segundo ela, não é adequadamente refletida nas atuais políticas de incentivo industrial.
“Quando se fala de tecnologia, nós, como brasileiros, não somos produtores de hardware. O hardware é produzido na China”, afirmou.
A executiva também chamou atenção para a dependência de plataformas de software desenvolvidas fora do país. “Será que nós, que vivemos essa complexidade, não seríamos os promotores das plataformas mais completas que poderiam existir no mundo?”, questionou.
Regulação e tributação entram no debate
Representantes do setor defenderam atualização de regras relacionadas a conectividade, Internet das Coisas (IoT) e infraestrutura digital, além de incentivos para ampliar a adoção de dispositivos conectados.
O presidente do Instituto Brasileiro de Direito das Comunicações e Soluções Digitais (IBDCOM), André Martins, argumentou que parte dos regulamentos atuais não acompanha a evolução das aplicações digitais e das redes utilizadas em projetos de cidades inteligentes.
“A pauta digital está distribuída na Esplanada, tem aproximadamente 14, 15 ministérios tomando conta da pauta”, afirmou. “Certamente há um delay entre a tecnologia e a legislação, cada vez maior, porque a tecnologia avança cada vez mais rápido.”
Já o empresário Tunísio Oliveira criticou o modelo tributário aplicado a equipamentos tecnológicos e afirmou que o custo dos dispositivos continua sendo um dos principais obstáculos para a expansão de aplicações digitais em larga escala.
Falta de profissionais limita expansão
A escassez de mão de obra qualificada também foi apontada como um dos fatores que dificultam o desenvolvimento de soluções nacionais. Segundo Taize Wessner, o déficit de profissionais especializados afeta tanto a produção de software quanto a capacidade de desenvolver tecnologias adaptadas às necessidades brasileiras.
“Nós não temos quantidade necessária de pessoas. É extremamente deficitário”, afirmou ao comentar a formação de profissionais para o setor.
Para os participantes, a ampliação da qualificação técnica será fundamental para sustentar o avanço de aplicações baseadas em Internet das Coisas, IA, automação urbana e análise de dados.
Declaração servirá de base para futuras agendas
As contribuições discutidas durante a Assembleia de Líderes pelo Futuro das Cidades serão consolidadas em um documento a ser divulgado pelos organizadores do Smart City Business.
A expectativa é que a declaração sirva como referência para futuras discussões junto a ministérios, agências reguladoras e demais órgãos envolvidos na formulação de políticas públicas para cidades inteligentes.
Ao final do encontro, prevaleceu a avaliação de que os desafios das cidades inteligentes deixaram de ser apenas tecnológicos. Para os participantes, infraestrutura urbana, política industrial, tributação, qualificação profissional e resiliência operacional passaram a ocupar papel central na agenda de transformação digital das cidades brasileiras.




