6 GHz: Regulador britânico propõe convivência entre Wi‑Fi e móvel

Ofcom, o regulador britânico do setor, propõe modelo de compartilhamento priorizado com AFC e destaca benefícios para 6G; no Brasil, tema opõe provedores e operadoras móveis.

(crédito: Freepik)

O regulador britânico de comunicações Ofcom publicou hoje, 9 de janeiro, uma proposta regulatória para autorizar o uso compartilhado da faixa superior de 6 GHz (6425–7125 MHz) por Wi‑Fi e serviços móveis. O modelo prevê uma divisão da faixa em blocos com prioridade diferenciada e utilização de sistemas automáticos de coordenação de frequência (AFC) para evitar interferências. A consulta pública segue aberta até 20 de março.

Segundo a proposta, o bloco inferior da faixa (6425–6585 MHz) terá prioridade para o Wi‑Fi, enquanto o segmento superior (6585–7125 MHz) será destinado prioritariamente a serviços móveis, como futuros sistemas 6G. Inicialmente, apenas o Wi‑Fi será autorizado a operar em ambas as subfaixas, com a exigência de uso de AFCs que permitam, futuramente, a reorganização ou retirada desses dispositivos em áreas onde redes móveis forem implantadas.

“Queremos ver o Wi‑Fi semeando o mercado com dispositivos compatíveis com o upper [faixa superior dos] 6 GHz, ao mesmo tempo em que preparamos o ambiente para a chegada do 6G”, informou a agência.

A medida complementa a decisão da Ofcom de permitir, também com AFC, a operação de Wi‑Fi outdoor e de maior potência no lower [parte baixa do espectro de] 6 GHz (5925–6425 MHz), tradicionalmente usado apenas para redes internas e de baixa potência.

Disputa semelhante no Brasil

O debate sobre a destinação da faixa de 6 GHz tem sido um dos mais intensos na regulação do espectro no Brasil. De um lado, associações de provedores de internet e empresas de tecnologia como a Apple defenderam, durante a Consulta Pública nº 9/2025 da Anatel, a alocação integral da faixa para o Wi‑Fi, com base em argumentos de eficiência e ampliação do acesso. De outro, as operadoras móveis pleitearam parte da faixa para redes licenciadas, incluindo futuras aplicações 6G.

Em 2025, a Anatel decidiu manter a divisão da faixa entre Wi‑Fi e SMP (Serviço Móvel Pessoal), rejeitando pedidos de revisão apresentados por entidades como Abrint e Associação Neo. A decisão foi ratificada em voto do Conselho Diretor, que considerou legal o processo de alocação e reafirmou o interesse público na divisão equilibrada da banda.

O Brasil não tem outro espectro adequado ao 6G além dos 6 GHz”, já justificou o superintendente da Anatel, Vinícius Caram, em evento setorial, reforçando o alinhamento da agência com a tendência internacional de divisão da faixa.

AFC como solução de convivência

A proposta da Ofcom destaca o papel dos sistemas de coordenação automática de frequências (AFC) para permitir a coexistência segura entre diferentes serviços. Esses sistemas cruzam informações de localização geográfica, licenças ativas e potência de transmissão para determinar, em tempo real, quais frequências podem ser usadas em cada ponto da rede.

No modelo britânico, dispositivos Wi‑Fi de potência padrão e clientes fixos precisarão acessar um banco de dados AFC antes de transmitir, garantindo que operem apenas nas frequências permitidas para sua localidade. A proposta também restringe o uso entre dispositivos móveis clientes, impedindo conexões diretas fora do controle do ponto de acesso principal.

Visão internacional e harmonização

A Ofcom afirma que sua proposta está alinhada a frameworks internacionais e visa contribuir com a construção de um modelo harmonizado para a faixa de 6 GHz. A introdução das redes móveis no upper 6 GHz dependerá do avanço dessa harmonização na Europa, enquanto o Wi‑Fi poderá ser autorizado ainda em 2026 no Reino Unido.

Já no Brasil, a introdução do modelo de AFC para Wi‑Fi ainda não foi formalizada pela Anatel, embora o tema tenha sido citado em discussões técnicas e audiências públicas. A comparação entre os modelos britânico e brasileiro mostra caminhos distintos: o primeiro foca em uso compartilhado com mecanismos de controle dinâmico, enquanto o segundo optou por uma divisão fixa da faixa.

A proposta da Ofcom está disponível aqui.

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Rafael Bucco

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