Você pode ter squads, IA e milhões em tecnologia e ainda assim fracassar

Um relato da adoção de metodologias ágeis, a evolução para um modelo de empresa ambidestra e o impacto da pandemia e da inteligência artificial nos negócios.

Albervan Ferreira Luz fala de tecnologia

Por Albervan Ferreira Luz* – Nos últimos 10 anos, eu fui testemunha ocular e, ao mesmo tempo, parte ativa de uma das maiores transformações que já vi acontecer no mundo corporativo. E, sendo honesto, tudo começou de um lugar nada glamouroso.

A TI que eu encontrei era lenta. Pesada. Cheia de legados, dependências, camadas sobre camadas de complexidade que ninguém mais sabia explicar direito. Sistemas que funcionavam mais por medo de mexer do que por eficiência. Pessoas brilhantes presas a processos engessados. E uma sensação constante de que o negócio corria mais rápido do que a tecnologia conseguia acompanhar.

Foi aí que caiu a primeira ficha: transformação digital não começa em tecnologia. Começa em gente.

Investir nas pessoas, dar espaço para aprender, errar, reaprender. Trazer os princípios das metodologias ágeis não como um framework da moda, mas como uma nova forma de pensar. Times mais autônomos, multidisciplinares, com responsabilidade de ponta a ponta. Menos comando e controle. Mais confiança.

Com o tempo, os squads se espalharam por toda a empresa. Produto, atendimento, financeiro, marketing, tecnologia. E veio a segunda grande lição: não basta ser ágil porque você usa squad. Dá para ter daily, sprint, backlog e continuar com um mindset fixo, hierárquico, defensivo. A agilidade real dói. Ela exige desapego, transparência, coragem para mudar decisões no meio do caminho.

A evolução natural foi sair da eficiência operacional e entrar na transformação do negócio. A promoção do Digital como estratégia, não como canal. A visão de produto digital como ativo central. Nesse caminho, a consultoria da Amazon foi um divisor de águas e ajudou a consolidar um modelo que marcou profundamente minha trajetória: o modelo ambiDEXtrous.

Um modelo de empresa ambidestra. No centro, o core dos produtos tradicionais, sólido, resiliente, gerador de caixa. Ao redor, orbitando, os Hubs de Produtos Digitais. Relacionamento com o Cliente no e-Care. Financeiros, como Pay. Conteúdo, como TV. Novos Negócios, SVA e tudo aquilo que conecta, experimenta, aprende e retroalimenta o core. Um ecossistema vivo, em movimento constante.

Foi nesse contexto que nasceu o Hub de e-Care, onde tive a honra de atuar como CEO por vários anos. Um laboratório real de growth de produtos digitais. OKRs bem definidos, metas exponenciais, decisões orientadas por dados, mas também por conhecimento tácito profundo do cliente. Muita pesquisa. Muito inner looping para ajustar rápido. Muito outer looping para escalar o que funcionava. E, principalmente, uma cultura forte de produto.

Então veio a pandemia.

E com ela, os agouros humanos. O medo, o isolamento, a incerteza, o luto, a exaustão emocional. Ao mesmo tempo, uma aceleração brutal do que já estava em curso. O digital deixou de ser opção e virou sobrevivência. O “novo” chegou sem pedir licença. Quem estava preparado, avançou. Quem não estava, sofreu.

Nesse cenário, a inteligência artificial entrou em campo de verdade. Não como discurso futurista, mas como ferramenta concreta, com casos reais que movimentaram dinheiro, reduziram custos, aumentaram eficiência e melhoraram experiência. IA no atendimento. IA na automação. IA na prevenção de fraudes. E junto com isso, um tema que se tornou central: Proteção Digital.

Vivemos uma avalanche de vazamento de dados, golpes, chamadas fraudulentas, engenharia social em escala industrial. Proteger o cliente deixou de ser diferencial e virou obrigação moral. E estratégica.

Ao longo desses anos, vieram os prêmios. Cases reconhecidos. Premiações como time e como profissional. Vieram também as falhas. Projetos que não escalaram. Hipóteses erradas. Decisões que, olhando em retrospecto, eu faria diferente. Mas foi justamente a cultura de experimentação constante que manteve tudo em movimento.

As metas financeiras foram sendo alcançadas. A maturidade digital cresceu. E um símbolo importante desse ciclo foi ver o app alcançar a maior nota nas lojas de aplicativos. Não era só sobre estrelas. Era sobre confiança, experiência e relevância na vida real das pessoas.

Quando olho para essa década, percebo que minha história se confunde com a de muitas empresas. Tentando evoluir tecnologicamente enquanto lidam com a própria evolução humana. Porque, no fim, toda transformação digital é, antes de tudo, uma transformação de pessoas.

E essa, definitivamente, nunca termina.

Albervan Ferreira Luz é executivo de tecnologia e transformação digital. Atualmente é Country Manager da DMA (Digital Made Accessible) na Itália

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Da Redação

O Tele.Síntese nasceu em 2005. É fruto de mais de 20 anos de experiência jornalística nas áreas de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC) e telecomunicações. Foi criada com a missão de produzir e disseminar informação sobre o papel das TICs na sociedade.

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