Unesco alerta para desigualdade digital e defende IA centrada no ser humano na educação

Coordenadora de Educação da UNESCO no Brasil, Rebeca Otero, afirma que tecnologia deve ser complementar e acompanhada de políticas públicas de conectividade

A transformação digital ampliou o acesso ao conhecimento e diversificou metodologias de ensino, mas exige uso responsável e políticas públicas para evitar o aumento das desigualdades educacionais, afirmou Rebeca Otero, coordenadora do setor de Educação da Unesco no Brasil, em entrevista ao videocast semanal do Tele.Síntese.

Segundo ela, a tecnologia amplia o acesso ao conhecimento, pode diversificar metodologias de ensino e personalizar a aprendizagem. No entanto, deve ser entendida como instrumento complementar ao trabalho pedagógico. “Essa tecnologia nunca vai substituir a interação humana de um professor com um estudante, ou a função social da escola”, ressaltou.

Pandemia de Covid-19 expôs abismo digital

Para Rebeca, a pandemia de Covid-19 de 2020 foi determinante para acelerar a incorporação das tecnologias no setor educacional. Ao mesmo tempo, revelou um problema estrutural. Na avaliação da coordenadora, o risco de ampliação do abismo social permanece caso não haja políticas públicas que garantam conectividade e infraestrutura adequadas.

Ela citou o programa Escolas Conectadas como iniciativa relevante, mas reconheceu que ainda há desafios estruturais. “A gente tem problemas de conectividade em muitas áreas”, afirmou, lembrando que ainda existem escolas com carências básicas.

Riscos da adoção acrítica

A Unesco publicou, em 2023, um relatório global de monitoramento da educação com foco nos impactos da tecnologia. O documento destacou riscos associados ao uso inadequado, como distração, dependência tecnológica, perda de interação social e exposição de dados de crianças e adolescentes.

“A adoção tem que ser uma adoção responsável”, afirmou Rebeca. “O sistema educacional não tem que abolir a tecnologia. Ele tem que se apropriar, usar para fins pedagógicos.”

IA deve ser centrada no ser humano

No campo da inteligência artificial, a UNESCO elaborou marcos referenciais para orientar seus 193 países membros. A principal diretriz é que a IA seja “centrada no ser humano” e acompanhada de formação adequada de professores e estudantes.

“É importante a escola transmitir como é que a IA funciona, como é que ela é desenvolvida”, disse. Para ela, o uso precisa ser consciente e crítico, considerando inclusive aspectos ambientais. “Não é qualquer coisa que eu saio perguntando, porque isso implica em gastos, implica em energia.”

A coordenadora ressaltou que não existe “receita de bolo” para aplicação da IA nas escolas. As decisões sobre uso devem considerar a realidade local, a formação dos docentes e as condições estruturais.

Rebeca defendeu que os países desenvolvam suas próprias diretrizes e considerem suas especificidades culturais, linguísticas e sociais. “É importante que cada país pense em elaborar as suas diretrizes, seus referenciais, e posteriormente, também sua própria IA”, afirmou.

Confira a entrevista completa no vídeo acima.

O Tele.Síntese organiza em 24 de março o evento Edtechs – o futuro da Educação, agora, no auditório da Telebras, em Brasília. A participação é livre, mas os lugares são limitados. Inscrições podem ser feitas aqui.

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Rafael Bucco

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