Um novo mercado de banda larga a caminho

Fabio Vianna Coelho, sócio da VianaTel e da RadiusNet, aponta que fusão entre Vero e Americanet deve estimular outras operações semelhantes entre ISPs, além de fazer as teles irem às compras; quem não se mover deve perder capacidade de competir, afirma
Fusões e aquisições entre teles e ISPs devem criar novo mercado de banda larga
Na avaliação de Fabio Vianna Coelho, fusões e aquisições devem criar novo mercado de banda larga no País (Divulgação)

Por Fabio Vianna Coelho* – A fusão entre Vero e Americanet, que, em julho, originou o quinto maior provedor de internet do País, é apontada por analistas de mercado, desde seu anúncio, como estopim do que será uma nova onda de fusões e aquisições (M&As) entre ISPs. Mais do que provável, esta, diferente da anterior, quando surgiram os maiores provedores regionais existentes hoje no mercado a partir da união de players e de aquisições de pequenos entre si e por médios, deverá ser marcada por fusões entre os grandes que, conforme algumas análise recentes, serão, em seguida, alvos das teles. São suposições bastante razoáveis, mas sujeitas a alguns fatores que afetarão o momento, as condições em que esse movimento se dará e a modelagem que o mercado terá nos próximos anos.

Passados meses sem operações semelhantes serem anunciadas – algo esperado, já que estas envolvem negociações e análises complexas que são afetadas pelos movimentos dos concorrentes –, a possibilidade de flexibilização da política monetária poderia, segundo análise do banco Pactual BTG, intensificar o movimento que está por vir.

“À medida que a taxa Selic começa a diminuir e o custo do capital subsequentemente tende a cair, a consolidação do mercado de banda larga no Brasil pode esquentar”, dizia em relatório divulgado logo após o Banco Central promover o primeiro corte da Selic desde junho de 2020.

Ocorre que, apesar da melhora das condições econômicas, não é possível considerar esta queda como a adoção de um viés. Integrantes do Copom estão bastante divididos entre seguir com novos cortes e retomar a postura conservadora. Portanto, ainda que a expectativa do mercado, conforme o Boletim Focus, seja de que a taxa básica, hoje em 13,25%, encerrará 2023 em 11,75% ao ano, não há clareza sobre o que ocorrerá na próxima e nas seguintes reuniões do comitê. E, mesmo que a redução persista, a taxa permanecerá por ainda muito tempo em níveis históricos bastante elevados, mantendo os juros dos financiamentos disponíveis no mercado extremamente altos.

Juros menores, para os provedores de internet – assim como para os demais segmentos da economia – estimulam crédito, favorecendo investimentos, que se justificam pelo aumento da demanda. Se não forem aguardados para tão cedo, a expectativa de que estejam disponíveis no futuro motiva a busca de posições de mercado no cenário atual. Mas a queda da Selic não é o fator mais importante para que fusões entre grandes provedores regionais sejam anunciadas em breve.

Para que isso se inicie, a fusão entre Vero e Americanet é estímulo mais que suficiente. Concorrentes que não se moverem perderão, além de mercado, capacidade para competir. Com a demanda por banda larga em queda, não há perspectivas quanto à conquista de crescimento orgânico. Ademais, para uma empresa aumentar seu market share, é muito mais barato e lógico adquirir ou se unir a outros ISPs, com redes – desde que estas lhes façam sentido – e clientelas já constituídas. Se o custo de capital é obstáculo para se comprar ativos, fundir-se é uma alternativa.

Análises sobre o segmento apresentam hipóteses que, a partir de fatores como localização de redes, áreas atendidas, tecnologias utilizadas etc. apontam como prováveis negociações envolvendo determinados players. Como é de se esperar, nada concreto é veiculado, mas, certamente, as negociações que farão surgir ISPs com carteiras que giram ao redor de um milhão de clientes – hoje, somente cinco destes dispõe de 800 mil ou mais – estão em andamento.

Já o ingresso das grandes operadoras em aquisições de ISPs é aguardado há tempos. Primeiro, porque, em seu atual modelo de negócios, não têm como obter crescimento relevante já que, nos grandes centros, onde atuam, os serviços são praticamente universalizados. Estender redes a outras áreas é menos interessante comercialmente do que fora no período em que, ao não fazê-lo, possibilitaram a explosão dos ISPs.

Da mesma forma, só lhes interessarão provedores com mais de um milhão de clientes, como os que estariam por surgir. Como a complementariedade de redes entre teles e ISPs é algo comum e os provedores regionais dispõem, geralmente, de tecnologia de fibra, o que mais pesará será o número de usuários a serem incorporados.

Vivo e América Móvil – controladora da Claro – já manifestaram, ao menos, estarem abertas a operações nesse sentido. A Claro, por sua vez, externou recentemente incômodo comercial com os provedores regionais, mostrando-se disposta a competir com estes na banda larga, seja nos preços que pratica, seja questionando a Anatel quanto às velocidades por eles alegadas. Se percebe a presença dessas empresas, poderá, como outras líderes, ir às compras.

Ainda aí, estes movimentos serão condicionados pela Selic mais por conta de justificarem investimentos que pelo custo de capital, já que as teles têm, dentre outros, como obter recursos em outros países, com condições muito mais razoáveis. Mais importante é haver ativos que lhes interessem, principalmente se valerem conquista de market share.

O segmento tem base muito larga que responde por mais da metade de conexões fixas ativas no país. Seu tamanho é incerto. Diz o BTG que seriam 23 empresas com mais de 100 mil acessos e 97% de 10 mil provedores com abaixo dos 10 mil. A Abrint, que, ao todo, são 20 mil, embora haja 32 mil CNAEs de provedores. Fato é que se trata de um mercado extremamente pulverizado e, mesmo com juros altos, interessa a PPPs que desejam permanecer na luta ou tornarem-se atraentes para potenciais compradores de maior porte – que deverão se multiplicar logo – dispor de carteiras o mais volumosas possível.

À medida que essas prováveis etapas da consolidação do segmento forem cumpridas, pequenos provedores ganharão valor conforme características que os tornem complementares às operações de outros players. Muitos desses serão, em seguida, depreciados e descartados por conta de passivos regulatórios, fiscais, trabalhistas, dentre outros, resultantes de má gestão ao longo de anos. Mais do que nas ondas anteriores de M&As, potenciais compradores realizarão suas ofertas amparados por especialistas que sabem mensurar adequadamente quanto vale cada ativo e quando um negócio não vale à pena.

Embora o BTG Pactual seja o controlador da V.Tal, empresa que ficou com a rede de fibra óptica da Oi a partir da separação de ativos da operadora ocorrida em sua recuperação judicial, as análises do banco devem ser observadas com atenção. Como as de outros bancos, trazem suposições que podem ou não se concretizar, mas que se baseiam em fatores como porte das empresas, áreas de atuação, tecnologias utilizadas em suas redes, market share que não exponha grupos resultantes de possíveis fusões ao aumento de obrigações regulatórias, dentre outros. Tanto estes quanto a lógica pura levam a crer que o mercado de telecomunicações do País passará por severas mudanças logo mais.

*Fabio Vianna Coelho é sócio da VianaTel, consultoria especializada em regularização de ISPs, e do RadiusNet, software de gestão para provedores de internet.

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