Sul lidera percepção de conhecimento sobre IA; Nordeste registra menor nível de familiaridade, aponta pesquisa
Levantamento nacional da Febraban/IPESPE mostra que diferenças regionais persistem na adoção da inteligência artificial, enquanto preocupação com golpes digitais se mantém elevada em todo o país.
Pesquisa nacional realizada pela Febraban em parceria com o IPESPE mostra que o Sul reúne hoje a população que se considera mais informada sobre IA, enquanto o Nordeste apresenta os menores índices de familiaridade. O estudo mostra que inteligência artificial já entrou definitivamente no cotidiano dos brasileiros, mas o grau de conhecimento, uso e confiança na tecnologia ainda varia significativamente entre as regiões do país. Apesar dessas diferenças, há um ponto de convergência nacional: o receio de fraudes e golpes digitais impulsionados por inteligência artificial.

O levantamento ouviu 3 mil pessoas entre 9 e 20 de junho de 2026 em todas as regiões brasileiras e identificou que 92% dos entrevistados já ouviram falar em inteligência artificial. Regionalmente, o índice varia de 88% no Norte para 94% no Sul. No Sudeste, chega a 93%; no Nordeste, a 90%; e no Centro-Oeste, a 89%.
As diferenças ficam mais evidentes quando os entrevistados avaliam o próprio nível de informação. Enquanto 70% dos moradores do Sul afirmam estar informados ou muito informados sobre IA, o percentual cai para 61% no Sudeste, 60% no Centro-Oeste, 64% no Norte e apenas 54% no Nordeste. A pesquisa indica que escolaridade, renda e idade continuam sendo fatores determinantes para a familiaridade com a tecnologia.
A desigualdade regional também aparece no domínio das ferramentas de IA generativa, como ChatGPT, Gemini, Copilot e Claude. O Norte registra o maior percentual de pessoas que afirmam conhecer bem essas plataformas (42%), seguido por Sudeste (36%), Sul (35%) e Nordeste (35%). O Centro-Oeste apresenta o menor índice, com 28%. Nacionalmente, apenas 35% dizem conhecer bem essas ferramentas, enquanto 20% afirmam não conhecê-las sequer de ouvir falar.
No uso cotidiano, o Sul também aparece à frente. A região registra o maior percentual de entrevistados que afirmam ter tido contato com inteligência artificial em serviços digitais (77%), acima da média nacional de 69%. O Sudeste acompanha a média, com 69%, enquanto Norte (67%), Nordeste (68%) e Centro-Oeste (64%) ficam ligeiramente abaixo. O levantamento considera aplicações como atendimento automatizado, reconhecimento facial, recomendações de conteúdo, aplicativos, bancos e comércio eletrônico.
Outro indicador relevante é a capacidade percebida de reconhecer conteúdos produzidos por IA. Em nível nacional, apenas um terço dos brasileiros acredita conseguir identificar sempre ou quase sempre textos, imagens, vídeos ou áudios gerados artificialmente, evidenciando que a disseminação da tecnologia ainda supera a capacidade de identificação desses conteúdos.
Fraudes preocupam em todas as regiões
Independentemente do estágio de adoção da inteligência artificial, a preocupação com seu uso malicioso é praticamente unânime entre os brasileiros.
Os golpes, fraudes e crimes digitais aparecem como o principal temor em todas as regiões. O Centro-Oeste lidera esse indicador, com 90% dos entrevistados classificando esse risco como preocupante ou muito preocupante, seguido pelo Nordeste (88%), Sudeste (82%), Sul (82%) e Norte (75%). A média nacional é de 84%.
A possibilidade de deepfakes influenciarem eleições também desperta preocupação elevada. O tema preocupa 86% dos moradores do Centro-Oeste, 79% do Nordeste, 76% do Sudeste, 76% do Sul e 75% do Norte, refletindo uma percepção disseminada sobre o potencial da IA para ampliar problemas de desinformação.
Já o impacto ambiental provocado pelos data centers que sustentam os modelos de inteligência artificial desperta preocupação mais heterogênea. O Norte (63%) e o Centro-Oeste (62%) concentram os maiores índices, seguidos por Sudeste (59%) e Nordeste (57%), enquanto o Sul registra a menor preocupação, com 46%.
Uso ainda concentrado em tarefas básicas
Apesar da rápida disseminação da IA, seu uso permanece concentrado em atividades de apoio cotidiano. A busca de informações e esclarecimento de dúvidas responde por 62% das aplicações mencionadas pelos usuários, muito à frente da criação de imagens e vídeos (14%) e do auxílio aos estudos (9%). Entre os benefícios percebidos, predominam o ganho de tempo (40%) e a possibilidade de aprender coisas novas (30%).
Mesmo com esse avanço, a pesquisa mostra que o sentimento predominante ainda é de cautela: 30% dos brasileiros afirmam enxergar a inteligência artificial com preocupação, percentual ligeiramente superior aos 27% que dizem receber a tecnologia com entusiasmo.
Para Antonio Lavareda, sociólogo, cientista político e presidente do Conselho Científico do IPESPE, o resultado reflete o momento atual do debate sobre inteligência artificial no país.
“A pesquisa traz um cenário compatível com o estágio atual do debate no país. Ainda estamos discutindo um marco legal específico para a inteligência artificial, e órgãos como a ANPD vêm testando instrumentos regulatórios voltados à IA e à proteção de dados.”
O estudo indica que, embora a inteligência artificial tenha alcançado praticamente todo o território nacional em termos de conhecimento e uso, persistem diferenças regionais importantes na apropriação da tecnologia. Ao mesmo tempo, há consenso entre os brasileiros sobre a necessidade de enfrentar os riscos associados ao uso malicioso da IA, especialmente em relação a fraudes digitais e à disseminação de conteúdos falsificados.




