Setor de data centers cobra energia, incentivos e mão de obra para atender à IA no Brasil
Principais líderes do setor revelam os bastidores da corrida por infraestrutura digital no Brasil e apontam os desafios para transformar o país em referência global em cloud e IA.

Com metade da capacidade de data centers da América Latina concentrada no Brasil, a indústria nacional vive uma fase de expansão acelerada, impulsionada por cloud computing e, mais recentemente, pela explosão de aplicações de inteligência artificial. O estado de São Paulo lidera essa concentração, mas enfrenta limitações que abrem espaço para novas regiões disputarem protagonismo.
Num painel do “Data Center AI & Cloud Summit”, evento sobre o futuro da infraestrutura e da inovação digitais promovido pelo Tele.Síntese, realizado hoje (26), em Santana de Parnaíba, SP, os principais executivos brasileiros do setor debateram os caminhos para manter o crescimento sustentável e atrair novos investimentos diante de desafios logísticos, fiscais e de planejamento urbano. O painel foi moderado por Renan Lima Alves, co-fundador e Presidente da Associação Brasileira de Data Centers (ABDC).
A relação com o poder público tem sido decisiva para a consolidação de hubs. O prefeito de Santana de Parnaíba, Elvis Cezar, relembrou que a cidade quase quebrou após a saída da Sky, mas se reinventou atraindo empresas como Telefônica e Equinix com planejamento urbano e incentivos fiscais. “Fomos de quitanda ao data center. A chave foi gerar confiança no investidor e proteger áreas estratégicas com zoneamento adequado e segurança jurídica”, disse.
Entre as ações recentes, estão a construção de um parque tecnológico focado em startups e infraestrutura para data centers e a implantação de uma infovia de 350 km com capacidade de 100 Gbps, que dará suporte a um dos maiores sistemas municipais de segurança do país. “O parque tecnológico será um cluster para que a gente possa trabalhar startups, pesquisa e tecnologia voltadas ao mercado de data center”, completou o prefeito.
O ambiente favorável à inovação também atrai novos projetos de peso. Demi Getschko, diretor-presidente do Nic.br, revelou que a entidade terá em Santana de Parnaíba um novo data center gêmeo, que abrigará o maior ponto de troca de tráfego do mundo. A iniciativa reforça o papel estratégico da cidade na infraestrutura crítica da internet no Brasil.
Escassez de energia
O crescimento dos data centers esbarra em gargalos como a escassez de energia no país. Os executivos alertaram que, sem planejamento prévio e políticas públicas articuladas, a expansão pode ser comprometida justamente quando a demanda por cloud e inteligência artificial dispara. Alessandro Lombardi, CEO da Elea Data Centers, destacou um problema já visível: a reserva especulativa de capacidade elétrica por empresas que não atuam no setor. “Existem especuladores imobiliários, empresas não de data center, que reservaram energia e não vão utilizar. O estado de São Paulo tem o risco de não conseguir atender à demanda de inteligência artificial, que é dez vezes ou mais superior àquela do cloud”, afirmou.
O risco, segundo o CRO e Head de Estratégia na Ascenty, Marcos Siqueira, é que a falta de energia disponível no tempo certo atrase ou inviabilize projetos estratégicos. “A energia deve estar disponível na capacidade necessária e quando o cliente precisa. Muitas decisões de onde vamos instalar um data center não dependem apenas de nós, mas também das demandas do cliente e da disponibilidade imediata de energia no local”, explicou.
Rodrigo Abreu, CEO da Omnia Data Centers, e Operating Partner de Infraestrutura Digital do Pátria Investimentos, reforçou a urgência de adaptar o planejamento do sistema elétrico ao novo ritmo da indústria digital. “Com um data center de 100 megawatts, é como criar uma cidade de 200 mil habitantes em dois anos. O sistema elétrico não foi planejado para esse ritmo. É preciso acelerar os ciclos de planejamento do setor”, afirmou.
Apesar dos gargalos, o Brasil possui vantagens estruturais relevantes. Um deles é o grid elétrico nacional integrado, que permite consumir energia renovável gerada em diferentes regiões do país. “O Brasil é um dos únicos países do mundo com uma rede planejada e operada centralmente”, destacou Abreu.
Já o presidente da Equinix, Victor Arnaud, comparou com o cenário norte-americano. “Nos Estados Unidos, o sistema de distribuição é fragmentado. O desafio de coordenação lá é muito maior do que aqui. O Brasil, apesar de tudo, tem uma vantagem competitiva que precisa ser aproveitada com o timing certo.”
O fator fiscal
O principal obstáculo apontado por todos os players está na carga tributária sobre equipamentos importados. O projeto Redata, que prevê desoneração na cadeia de data centers, ainda não foi implementado. “Hoje, construir um data center de 100 MW custa cerca de US$ 1 bilhão. Mas o investimento do cliente que vai instalar os servidores pode chegar a US$ 8 bilhões. Sem redução nos impostos de importação, estamos fora do jogo”, disse Siqueira.
Abreu, da Omnia Data Centers, reforçou que a maior demanda dos investidores é previsibilidade. “Não se trata apenas de reduzir impostos, mas de garantir estabilidade por 20, 30 ou 40 anos. Muitos programas federais e estaduais surgem e desaparecem, o que gera insegurança para quem aposta bilhões no país”, afirmou.
Ele lembrou que o Brasil ainda importa cerca de US$ 7 bilhões em serviços de data center por ano — consumo que poderia estar sendo atendido internamente, caso houvesse mais incentivos.
A tendência de descentralização também impulsiona o surgimento de data centers menores, integrados à borda da rede. Os ISPs (provedores regionais) vêm investindo em estruturas próprias para entregar processamento local. “Muitos ISPs estão migrando de operadoras de rede para provedores de TI e edge computing, com soluções modulares, rápidas e aderentes à realidade brasileira”, explicou Thyago Monteiro, CTO da Connectoway.
A pandemia acelerou esse movimento. Com apoio de fornecedores como a Huawei, provedores do interior passaram a construir data centers modulares com velocidade semelhante à vista na China.
Mão de obra qualificada
Além da infraestrutura física, o setor já antecipa a escassez de profissionais qualificados como um dos próximos desafios. “Não adianta construir o prédio se não houver gente para operar os equipamentos, manter servidores, rodar aplicações de IA”, alertou Arnaud, da Equinix.
Siqueira, da Ascenty, chamou atenção para a necessidade de qualificação não apenas para a operação dos centros de dados, mas também para as tecnologias embarcadas, como cloud computing e inteligência artificial. “Podemos ter tudo destravado — tributos, energia, construções — e mesmo assim enfrentar problemas de operação”, alertou.
Abreu, da Omnia Data Centers, também reforçou que a previsibilidade regulatória e a formação técnica caminham juntas. Sem estabilidade em programas federais e estaduais, a atração de investimentos se torna mais difícil — o que impacta diretamente a geração de empregos especializados no setor.
Alessandro Lombardi, da Elea, foi enfático ao defender o potencial do capital humano brasileiro: “O vice-presidente de produtos de IA da Meta é brasileiro. Na Gemini, da Google, é a mesma coisa. O Brasil não vai faltar em cérebros.”
Na outra ponta, Monteiro, da Connectoway, trouxe um contraponto otimista. Segundo ele, a empresa já capacitou mais de 10 mil profissionais nos últimos três anos, espalhados por todo o país. “Tem mão de obra, tem gente para aprender. Se tivermos previsibilidade, vamos conseguir fazer muito mais do que já fizemos”, afirmou.




