Quem não produz tecnologia compra dependência
O Brasil quer participar da revolução da IA. A pergunta é se pretende fazê-lo como produtor de tecnologia ou apenas como consumidor dela

Por Murilo Pinheiro* – O Brasil quer participar da revolução da inteligência artificial. A pergunta é se pretende fazê-lo como produtor de tecnologia ou apenas como consumidor dela.
A resposta pode definir o lugar que o País ocupará na economia global nas próximas décadas.
Enquanto Estados Unidos, China e União Europeia disputam a liderança em inteligência artificial, semicondutores, computação avançada, telecomunicações e infraestrutura digital, o Brasil ainda busca construir uma estratégia capaz de transformar suas vantagens competitivas em protagonismo tecnológico.
Não faltam ativos para isso.
Temos uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo, potencial para ampliar a geração renovável, um mercado consumidor relevante, instituições de pesquisa respeitadas internacionalmente e uma engenharia que participou da construção de alguns dos maiores projetos de infraestrutura da América Latina.
Também possuímos reservas estratégicas de minerais críticos, incluindo terras raras, cada vez mais importantes para a fabricação de equipamentos eletrônicos, baterias, sistemas de armazenamento de energia e diversas tecnologias que sustentam a transição energética e a transformação digital.
Mas a experiência internacional mostra que recursos naturais, por si só, não garantem desenvolvimento.
A verdadeira riqueza das nações está na capacidade de transformar conhecimento em inovação, produção, competitividade e desenvolvimento.
É justamente nesse ponto que o Brasil precisa avançar.
A transformação digital deixou de ser um tema restrito ao setor de tecnologia. Hoje ela influencia a indústria, a agricultura, o sistema financeiro, a saúde, a mobilidade, a energia e praticamente todas as atividades econômicas. O desenvolvimento das próximas décadas dependerá cada vez mais da capacidade de criar, dominar e aperfeiçoar tecnologias estratégicas.
Por isso, a discussão sobre soberania digital não deve ser confundida com isolamento tecnológico.
Nenhum país produz sozinho tudo aquilo de que necessita. Em um mundo interconectado, cooperação internacional continuará sendo fundamental. O que está em jogo é algo diferente: a capacidade de participar da criação das tecnologias que movimentam a economia contemporânea e de não depender exclusivamente de decisões tomadas fora de suas fronteiras.
Essa discussão ganha ainda mais relevância diante do avanço acelerado da inteligência artificial.
Muito se fala sobre algoritmos, aplicações e produtividade. Mas a corrida global pela IA envolve uma infraestrutura complexa e sofisticada. Exige capacidade computacional, redes avançadas de telecomunicações, centros de dados, energia abundante, pesquisa científica e profissionais altamente qualificados.
Em outras palavras, exige engenharia.
Não é coincidência que os países que lideram essa transformação sejam os mesmos que investiram durante décadas na formação técnica, na pesquisa aplicada e no fortalecimento de suas capacidades industriais.
Nos últimos anos, o Brasil naturalizou a ideia de que poderia abrir mão de uma estratégia nacional de engenharia e, ainda assim, ocupar posição relevante na economia do conhecimento. Os fatos mostram exatamente o contrário.
Nenhuma potência tecnológica surgiu sem investir de forma consistente na formação de engenheiros, na pesquisa científica, na inovação e na capacidade de transformar conhecimento em produção.
Os semicondutores ilustram bem essa realidade.
Presentes em praticamente todos os equipamentos que sustentam a vida moderna, os chips tornaram-se ativos estratégicos para a economia mundial. Estão nos smartphones, nos automóveis, nos equipamentos médicos, nos sistemas de defesa, nas redes de telecomunicações, nos data centers e nas aplicações de inteligência artificial.
Mais do que um componente industrial, representam uma infraestrutura essencial para o desenvolvimento econômico e tecnológico.
O Brasil não precisa replicar os modelos adotados pelas grandes potências. Mas precisa compreender que permanecer distante dos segmentos de maior valor agregado da economia digital significa aceitar uma posição de dependência em áreas cada vez mais estratégicas.
Existe ainda um risco adicional.
O mesmo país que possui energia limpa, minerais críticos e capacidade técnica pode acabar restrito ao papel de fornecedor de matérias-primas para que outras nações desenvolvam as tecnologias que serão posteriormente vendidas ao mercado brasileiro.
Seria a repetição, em pleno século XXI, de uma lógica histórica que limitou nosso desenvolvimento: exportar recursos e importar conhecimento incorporado em produtos de alto valor agregado.
Evitar esse cenário exige visão de longo prazo.
Exige investimentos permanentes em ciência, tecnologia e inovação. Requer fortalecer universidades, institutos de pesquisa e centros tecnológicos. Demanda ainda ampliar a interação entre academia e setor produtivo. Além disso, criar condições para que empresas brasileiras inovem, cresçam e disputem mercados globais.
Mas exige, sobretudo, recolocar a engenharia no centro da estratégia nacional de desenvolvimento.
O Brasil tem energia para alimentar data centers, minerais para abastecer a indústria tecnológica e engenheiros capazes de desenvolver soluções para os desafios do século XXI. O que falta é transformar essas vantagens em um projeto nacional.
É o que propugna a Federação Nacional dos Engenheiros (FNE) em seu projeto “Cresce Brasil + Engenharia + Desenvolvimento”. Sua nova edição, comemorativa dos 20 anos da iniciativa, acaba de ser lançada e apresenta justamente como foco propostas de expansão econômica, levando em conta as potencialidades e os desafios do século XXI.
A revolução tecnológica já começou. A questão é saber se queremos participar dela apenas como mercado consumidor ou como um país capaz de criar, desenvolver e produzir as tecnologias que definirão o futuro.
Porque, no século XXI, quem não produz tecnologia compra dependência.
*Murilo Pinheiro é presidente da FNE (Federação Nacional dos Engenheiros)




