Controle humano e governança são requisitos no uso de IA em segurança urbana
Debate no Smart Cities Mundi reuniu operadoras, setor público e especialistas para discutir reconhecimento facial, redes, privacidade, integração de dados e limites regulatórios.
O avanço de câmeras, reconhecimento facial, sensores e inteligência artificial (IA) nas cidades exige governança de dados, transparência, redes seguras e controle humano sobre decisões de segurança pública. Essa foi a tônica do painel “Segurança, IA e Poder: Até Onde a Cidade Pode Monitorar para Proteger?”, realizado no Smart Cities Mundi 2026, com representantes do setor público, operadoras, integradores e especialistas em privacidade.

André Martins, presidente do IBTD, afirmou que a tecnologia avança mais rapidamente do que a legislação e a regulação. Segundo ele, projetos de câmeras com IA cruzam três dimensões: LGPD, inteligência artificial e cibersegurança. “Você passa pela parte de IA, que processa isso e infere alguns resultados em cima de informações sensíveis”, disse. Para Martins, o debate deve considerar por onde trafegam os dados, quais redes são usadas e qual o nível de segurança aplicado.
Privacidade e transparência
Pedro Saliba, coordenador de projetos da Data Privacy Brasil, afirmou que a Constituição, a LGPD, a Lei de Acesso à Informação e o futuro marco legal de IA devem orientar políticas públicas baseadas em dados pessoais. Ele alertou para riscos em casos de reconhecimento facial indevido e defendeu medidas técnicas e administrativas para mitigar falhas.
“Quando a gente está falando de projetos do poder público, a gente precisa também necessariamente ter transparência a respeito de quais empresas estão fazendo isso, quais são as medidas técnicas adotadas, medidas administrativas também adotadas para mitigar riscos”, afirmou Saliba.
Rio defende validação humana
O major Thyago Ferreira, da Polícia Militar do Rio de Janeiro, afirmou que o sistema fluminense começou com cerca de 350 câmeras, em 2023, e foi desenhado já considerando cobrança de órgãos de controle. Segundo ele, o alerta automatizado não leva diretamente à abordagem policial.
“Não é a câmera que identifica a pessoa e manda o policial fazer a abordagem”, disse. “Quem tomou a decisão não foi a máquina, foi o homem.” Segundo Ferreira, o projeto já registrou 850 prisões a partir das câmeras iniciais, sem disparos de arma de fogo, e passou a integrar mais de 30 mil câmeras ao 190 Integrado.
Operadoras e integradores
Christiana Mello, da Vero, afirmou que provedores são parte relevante da infraestrutura de cidades inteligentes. Segundo ela, a Vero está em 425 cidades e atende prefeituras em projetos de B2B e B2G. A executiva citou São José dos Campos como principal case da empresa, com central de monitoramento integrada a mais de oito órgãos e acompanhamento em tempo real de segurança, trânsito, escolas, hospitais e serviços públicos.
Edson Lima da Silva, da Alares Internet, disse que a demanda por cidades inteligentes costuma começar pela iluminação pública e evoluir para sensores, câmeras, alarmes, leitura de placas e reconhecimento facial. Segundo ele, a empresa implanta projetos em 90 a 120 dias, com arquitetura modular para permitir a adição de novas aplicações sem substituir toda a base tecnológica.
Paulo Humberto Gouvea, da TIM Brasil, afirmou que redes públicas e privadas podem atender diferentes aplicações, inclusive missão crítica. Ele citou projetos em agro, rodovias, utilities, portos, mineração e indústria, além da necessidade de acordos de nível de serviço conforme a aplicação.
Pedro Ferreira, CEO da Método System, alertou para o risco de cidades comprarem tecnologia sem capacidade de uso ou integração. “Não adianta a gente vir com uma receita de um smart para uma cidade que não tem porte para isso, não tem pessoas capacitadas para operar no dia a dia, e não tem também a questão da integração”, afirmou.




