OpenCare 5G leva telediagnóstico a município remoto no Piauí
Projeto da BP usou conectividade 5G para exames com apoio remoto de especialistas e apresentou resultados da primeira fase

O projeto OpenCare 5G encerrou sua primeira fase em Miguel Alves, no Piauí, com 910 exames realizados em modelo de telediagnóstico com apoio remoto de especialistas localizados em São Paulo. No evento “Conectando o Futuro da Saúde Pública”, organizado pela BP, os participantes apresentaram a iniciativa como um projeto de pesquisa voltado à avaliação da viabilidade de implementação desse tipo de serviço em município remoto.
A iniciativa reuniu BP, Inova HC, CPQD, Samsung Brasil e a Secretaria Municipal de Saúde de Miguel Alves. Juliana Pipari, gerente executiva da instituição, afirmou que o projeto foi a “primeira experiência de telediagnóstico” da BP e disse que o objetivo desta etapa é gerar evidências para futuras decisões de escala e protocolo. O projeto contou com apoio do CPQD na arquitetura de dados e da Samsung na parte tecnológica e de equipamentos.
Miguel Alves foi escolhida como município-piloto por reunir, segundo a equipe, características que poderiam servir de base para reprodução do modelo. Mônica Molina, da BP, informou que a cidade tem 30 mil habitantes, integra o conjunto dos 224 municípios do Piauí e tem 70% da população em área rural. Segundo ela, o município já vinha passando por transformação na gestão e na implementação de projetos de saúde digital.
Projeto reuniu quatro linhas de exame
A primeira fase do OpenCare 5G abrangeu tele-ecocardiografia, tele-ultrassonografia obstétrica e fetal, para pesquisa de endometriose e telecolposcopia. Molina afirmou que o projeto buscou avaliar a viabilidade da implementação do telediagnóstico por meio da conectividade 5G. Segundo ela, a transmissão em tempo real permitiu que o especialista acompanhasse o exame à distância e orientasse o profissional generalista que estava ao lado do paciente. A médica disse que o projeto mostrou “viabilidade em 100% dos testes”.
Também houve treinamento local dos profissionais envolvidos. No caso da ecocardiografia, a capacitação teve 48 horas, com participação de especialistas da BP no território. O projeto envolveu integração de sistemas, circulação de dados e criação de processos voltados à segurança do paciente e dos dados.
No cronograma apresentado, o diagnóstico situacional foi feito em setembro. O primeiro exame ocorreu em maio de 2025; a ultrassonografia morfológica começou em julho; os exames para endometriose, em agosto; e a primeira telecolposcopia, em dezembro.
Atendimento local reduziu encaminhamentos
Segundo a BP, a meta inicial era de 900 exames, e o projeto chegou a 910 em fevereiro. A pesquisa de satisfação obteve nota 100 e todos os pacientes atendidos recomendariam esse tipo de atendimento por telemedicina. Quase 70% dos pacientes foram tratados na atenção primária, evitando encaminhamento para atenção especializada, e mais de 90% dos pacientes atendidos eram pretos e pardos.
Na frente de sustentabilidade, os dados apresentados no evento indicam economia de mais de 78 mil quilômetros em deslocamentos, mais de R$ 74 mil em gastos, mais de 11 mil horas poupadas e redução superior a 44 toneladas de emissões.
Raquel Alves Ribeiro, secretária de Saúde de Miguel Alves, afirmou que a população passou a ter acesso a exames e consultas “de forma mais rápida e eficiente”. Segundo ela, há comunidades a cerca de 60 km da área urbana e a referência para exames de média e alta complexidade é Teresina. O projeto ajudou a reduzir deslocamentos e melhorou a organização do fluxo assistencial no município.
5G, operação remota e Open RAN entraram na prova de conceito
A conectividade 5G foi usada para permitir a realização de exames complexos em Miguel Alves com acompanhamento em tempo real de especialistas da BP em São Paulo. Segundo os executivos, exames que levavam até 180 dias passaram a ser realizados em menos de um mês.
Pelo lado tecnológico, o CPQD informou que a implementação foi apoiada inicialmente pelo projeto Dot-RAM, do Centro de Competência Embrapii CPQD, ligado ao MCTI, e que a operação dos nove meses de duração foi sustentada pelo projeto 5G Saúde, ligado ao Funttel, do Ministério das Comunicações. O executivo Ivan Lúcio Junqueira afirmou que a equipe montou a rede do hospital e operou o ambiente de forma remota e automatizada, buscando robustez e desempenho compatível com a qualidade dos fluxos de vídeo.
Segundo a BP, o Open RAN no 5G e no 4G permite a desagregação da rede com diferentes fornecedores. Felipe Jordan, do Inova HC, disse que a experiência também permitiu avançar na discussão sobre interoperabilidade de dados.
A Samsung informou que forneceu os equipamentos de ultrassom e o sistema Sonosync, usado para transmissão, videoconferência e comandos remotos nos 910 exames. Rafael Piveta, cardiologista da BP, afirmou: “Isso não é apenas um avanço tecnológico; pode redefinir as formas de acesso à saúde.”
Próxima etapa depende de logística, gestão local e treinamento
Ao tratar da possibilidade de expansão, Juliana Pipari citou como desafios o engajamento da gestão municipal, a cessão de horas médicas, a logística de envio e manutenção de equipamentos e o treinamento de profissionais não especialistas. Segundo ela, o projeto foi estruturado para gerar evidências e apoiar alinhamentos futuros com sociedades médicas e com o Ministério da Saúde. Pipari afirmou ainda que o ministério já visitou a iniciativa e demonstrou interesse em escala.




