MAPA admite ampliar recursos do Plano Safra para agricultura digital, mas cobra articulação do setor
Secretário Guilherme Campos, do MAPA, afirma que linha específica de financiamento para conectividade rural pode ser criada, desde que haja demanda organizada

Durante o AGROtic 2025, evento promovido pelo Tele.Síntese na última semana, o secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), Guilherme Campos, afirmou que o governo está disposto a abrir uma linha específica dentro do Plano Safra para apoiar a digitalização e a conectividade rural, mas condicionou a medida à articulação do setor produtivo. “Nunca fui procurado por nenhuma entidade para discutir essa possibilidade”, disse.
Hoje, os R$ 6,8 bilhões destinados à inovação no Plano Safra estão concentrados na linha unificada que integrou o Inova Agro e o Moderagro, com foco na modernização de máquinas e melhoria da produtividade dentro da porteira. Segundo Campos, apenas produtores rurais podem acessar esse financiamento, excluindo startups e empresas de tecnologia que atuam em conectividade e automação no campo.
“A atuação do MAPA é limitada por lei à porteira para dentro. Se quiserem usar recursos do Plano Safra para infraestrutura de telecomunicações, será preciso mudar a legislação ou articular alternativas com outros fundos”, explicou. Ainda assim, o secretário afirmou que a pasta está “aberta” à possibilidade de destinar parte do orçamento de investimento a uma nova linha dedicada à conectividade, desde que a proposta parta do setor.
Neste ano, o Plano Safra movimentará R$ 516 bilhões, dos quais R$ 101 bilhões são destinados a investimentos. O restante é custeio ao produtor agrícola. E do investimento, R$ 6,8 bilhões são especificamente voltados à inovação.
Brasscom e Abag prometem levar propostas
Representantes da Brasscom e da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), também presentes no painel, afirmaram que vão formalizar uma proposta para inserção da conectividade como item estruturante nas futuras edições do Plano Safra.
Sérgio Sgobbi, diretor da Brasscom, reconheceu que, apesar de avanços nos últimos anos, o financiamento de tecnologias da informação e comunicação (TICs) ainda é restrito dentro do programa. “Em 2021, a linha de inovação tinha R$ 2 bilhões. Agora são R$ 6,8 bilhões, mas precisamos entender quanto disso foi efetivamente aplicado em soluções digitais e conectividade”, afirmou.
Giuliano Alves, gerente de sustentabilidade da Abag, reforçou a necessidade de que o produtor rural, especialmente o médio, tenha acesso a soluções de conectividade e digitalização. Segundo ele, parte significativa desses agricultores ainda encontra barreiras no uso de tecnologias básicas por falta de estrutura e capacitação.
Iniciativas paralelas já estão em curso
Enquanto a linha específica não se concretiza, o MAPA coordena a Câmara Temática de Inovação Agrodigital, que reúne 57 instituições e 115 representantes da cadeia produtiva. Além disso, a Secretaria de Inovação, chefiada por Pedro Neto, lidera as articulações com outras pastas, como o Ministério das Comunicações, em torno de programas de transformação digital no campo.
Campos afirmou que vai participar da próxima reunião da Câmara Agrodigital para debater diretamente com o setor formas de ampliar a presença da conectividade no planejamento do Plano Safra 2026.
“O produtor rural brasileiro é ávido por tecnologia. Falta organização para que essa demanda se traduza em prioridade orçamentária”, disse Campos.


