Índice global de adoção de IA no setor público põe Arábia Saudita na liderança; Brasil fica no meio da tabela

Estudo mostra avanço acelerado do uso de IA por servidores públicos, mas expõe desigualdades entre países e um descompasso entre entusiasmo individual e suporte institucional.

O uso de inteligência artificial no setor público avançou rapidamente em 2026, mas a distância entre estratégia e uso efetivo ainda separa os países líderes daqueles em estágio intermediário ou cauteloso. Essa é a conclusão do Public Sector AI Adoption Index 2026, elaborado pela Public First para o Center for Data Innovation e patrocinado pelo Google, com base em pesquisa com 3.335 servidores públicos de dez países, realizada entre 15 de novembro e 5 de dezembro de 2025. Globalmente, 74% dos respondentes disseram usar IA, mas apenas 18% avaliam que seus governos a utilizam de forma muito eficaz.

Índice global de adoção de IA/Ilustração/Ascom/Google

No ranking geral, a Arábia Saudita aparece na liderança, com 66 pontos, seguida por Singapura e Índia, ambas com 58 pontos. Depois vêm África do Sul (55), Brasil (49), Reino Unido (47), Estados Unidos (45), Alemanha (44), Japão (43) e França (42). A classificação do estudo divide os países em três grupos: adotantes avançados — Singapura, Arábia Saudita e Índia —; adotantes desiguais — Reino Unido, Estados Unidos, África do Sul e Brasil —; e adotantes cautelosos — Alemanha, França e Japão.

O estudo sustenta que a diferença entre os grupos não está apenas na disposição para usar IA, mas nas condições organizacionais para fazê-lo. Em ambientes com orientação clara e apoio institucional, 91% dos servidores afirmam ter confiança para usar IA, 82% dizem estar otimistas e 79% relatam sensação de empoderamento. Já nos contextos de baixa capacitação institucional, persistem barreiras como falta de regras, de treinamento e de ferramentas aprovadas. Metade dos entrevistados, em todos os mercados, cita preocupações com segurança e privacidade de dados como obstáculo.

O comparativo por dimensão mostra perfis distintos. A Índia se destaca em entusiasmo, com 71 pontos, impulsionada por adoção em escala. O Reino Unido aparece bem em educação, com 51 pontos. Os Estados Unidos lideram em capacitação prática de ferramentas, com 45 pontos em enablement. Singapura se sobressai em empowerment, com 61 pontos, amparada por regras claras e coordenação central. A Arábia Saudita, por sua vez, lidera em embedding, com 60 pontos, refletindo integração mais ampla da IA aos fluxos de trabalho. Em contraste, Alemanha, França e Japão permanecem mais avessos ao risco, com uso mais restrito a projetos especializados do que a rotinas administrativas.

No caso brasileiro, o índice aponta um quadro intermediário. O país registra 60 pontos em entusiasmo, 54 em educação, 46 em empowerment, 41 em enablement e 44 em embedding. Entre os servidores brasileiros, 83% consideram a IA eficaz, 89% dizem que ela economiza tempo e 65% se declaram otimistas sobre seu uso no setor público. Ao mesmo tempo, 67% afirmam que seu conhecimento sobre IA é total ou majoritariamente autodidata.

O ponto de maior fragilidade do Brasil é a estrutura institucional. O país teve a menor pontuação do índice em enablement. Mais de 60% dos servidores dizem que suas organizações não oferecem os recursos ou ferramentas necessários para uso efetivo da IA; 61% afirmam que o órgão não fornece o que eles precisam para aplicar a tecnologia no trabalho; 49% não saberiam a quem recorrer em caso de problema; e 68% avaliam que as lideranças não oferecem comunicação clara nem direção sobre o tema. O resultado, segundo o estudo, é uma lacuna entre interesse e infraestrutura, que limita a passagem do uso pontual para adoção rotineira e em escala.

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Paula Coutinho

Jornalista com mais de 20 anos de experiência profissional, com passagem pela grande imprensa, em jornais diários, semanários, revistas, rádios e emissoras de TV.

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