Em carta, Brasil protesta contra tarifa de 50% dos EUA

Carta assinada por Geraldo Alckmin e Mauro Vieira alerta para riscos bilionários ao comércio de alta tecnologia e pede retomada do diálogo antes de 1º de agosto.

O governo do Brasil enviou ontem mesmo, 15 de julho, uma carta ao secretário de Comércio dos Estados Unidos, Howard Lutnick, e ao representante comercial, Jamieson Greer, na qual manifesta “indignação” com a tarifa de importação de 50% sobre todos os produtos brasileiros anunciada em 9 de julho e programada para entrar em vigor em 1º de agosto.

“A imposição das tarifas terá impacto muito negativo em setores importantes de ambas as economias, colocando em risco uma parceria econômica historicamente forte e profunda entre nossos países”, diz o documento.

Geraldo Alckmin
Geraldo Alckmin (Imagem: reprodução/2022)

 

A carta lembra que, em 16 de maio, Brasília entregou aos norte-americanos uma minuta confidencial de proposta com temas negociáveis para mitigar desequilíbrios comerciais acumulados — déficit de US$ 410 bilhões em favor dos EUA nos últimos 15 anos, segundo dados oficiais deles. O Brasil “ainda aguarda” resposta formal e cobra manifestações “à luz da urgência do tema”.

Dados do MDIC mostram que as exportações brasileiras de bens de alta tecnologia cresceram 22,7%, para US$ 4,4 bilhões em 2024, tendo os EUA como principal destino, com alta de 36,2% no período. A maior parte diz respeito a aeronaves, mas equipamentos de comunicação compõem parte desse fluxo.

O Itamaraty afirma que o Brasil permanece “pronto para dialogar” e negociar acordo mutuamente aceitável antes do prazo para a vigência da tarifa. A expectativa é que a questão seja tema de reunião técnica no âmbito do Acordo de Cooperação Econômica e Comercial já na próxima semana.

Impacto potencial no setor de infraestrutura digital

A repercussão da investigação e da possibilidade de sanções comerciais preocupa representantes do setor de tecnologia e data centers no Brasil. Para Caroline Ranzani, diretora de Relações Institucionais da Elea Data Centers, uma retaliação brasileira ao possível tarifaço de 50% anunciado por Trump “vai contra os esforços governamentais para estimular o crescimento do setor de infraestrutura digital no país”.

Ela ressalta que, enquanto o governo Lula prepara o ReData, programa para desonerar equipamentos para atrair investimentos de grandes empresas de tecnologia, uma escalada tarifária “representaria um grande retrocesso”.

Segundo Ranzani, a Lei de Reciprocidade, se acionada, poderia comprometer “todos os esforços feitos até aqui para tornarmos o país uma plataforma de Inteligência Artificial, a base da economia do futuro”.

A executiva também aponta que o regime fiscal especial ReData pode ser uma parte da solução negociada com os EUA. “O ReData foi desenhado para desonerar investimentos e zerar tarifas de importação para equipamentos de tecnologia, sobre os quais hoje recai uma carga tributária de 52,7%”, observa.

A Brasscom, entidade que representa empresas de TICs e tecnologia da informação, informou que está avaliando os possíveis impactos da tarifa de 50% sobre as empresas instaladas no Brasil.

A carta na íntegra

Confira, abaixo, o texto completo da carta enviada pelo Brasil aos EUA sobre a tarifa de 50% sobre produtos brasileiros:

Brasília, 15 de julho de 2025.

A Suas Excelências os Senhores
Secretário de Comércio, Howard Lutnick
Representante Comercial dos Estados Unidos, Embaixador Jamieson Greer

Senhor Secretário,
Senhor Embaixador,

O Governo brasileiro manifesta sua indignação com o anúncio, feito em 9 de julho, da imposição de tarifas de importação de 50% sobre todos os produtos exportados pelo Brasil para os Estados Unidos, a partir de 1º de agosto. A imposição das tarifas terá impacto muito negativo em setores importantes de ambas as economias, colocando em risco uma parceria econômica historicamente forte e profunda entre nossos países. Nos dois séculos de relacionamento bilateral entre o Brasil e os Estados Unidos, o comércio provou ser um dos alicerces mais importantes da cooperação e da prosperidade entre as duas maiores economias das Américas.

Desde antes do anúncio das tarifas recíprocas em 2 de abril de 2025, e de maneira contínua desde então, o Brasil tem dialogado de boa-fé com as autoridades norte-americanas em busca de alternativas para aprimorar o comércio bilateral, apesar de o Brasil acumular com os Estados Unidos grandes déficits comerciais tanto em bens quanto em serviços, que montam, nos últimos 15 anos, a quase US$ 410 bilhões, segundo dados do governo dos Estados Unidos. Para fazer avançar essas negociações, o Brasil solicitou, em diversas ocasiões, que os EUA identificassem áreas específicas de preocupação para o governo norte-americano.

Com esse mesmo espírito, o Governo brasileiro apresentou, em 16 de maio de 2025, minuta confidencial de proposta contendo áreas de negociação nas quais poderíamos explorar mais a fundo soluções mutuamente acordadas.

O Governo brasileiro ainda aguarda a resposta dos EUA à sua proposta.

Com base nessas considerações e à luz da urgência do tema, o Governo do Brasil reitera seu interesse em receber comentários do governo dos EUA sobre a proposta brasileira. O Brasil permanece pronto para dialogar com as autoridades americanas e negociar uma solução mutuamente aceitável sobre os aspectos comerciais da agenda bilateral, com o objetivo de preservar e aprofundar o relacionamento histórico entre os dois países e mitigar os impactos negativos da elevação de tarifas em nosso comércio bilateral.

Geraldo Alckmin
Vice-Presidente da República
Ministro de Estado do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços

Mauro Vieira
Ministro de Estado das Relações Exteriores

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Rafael Bucco

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