D2D avança, mas ainda depende das teles
Executivos de Vivo, Claro e V.tal avaliam concentração no mercado D2D e relação comercial entre satelitais e operadoras móveis

A conectividade direta entre dispositivos móveis e satélites (Direct-to-Device, ou D2D) começa a ganhar relevância nas estratégias das operadoras e fornecedores de infraestrutura, impulsionada pela redução dos custos de lançamento espacial, pela expansão das constelações de baixa órbita (LEO) e pela perspectiva de ampliar a cobertura em áreas remotas. Apesar do avanço tecnológico, executivos de Vivo, Claro e V.tal avaliam que o modelo ainda enfrenta desafios relacionados à sustentabilidade econômica, à regulação e à própria integração com as redes móveis existentes.
O tema foi debatido durante painel sobre o futuro das redes móveis em evento em São Paulo realizado pelo site Teletime nesta quinta, 11, no qual que se discutiu a evolução das tecnologias NTN (Non-Terrestrial Networks) e seu papel na próxima geração de conectividade.
Queda do custo espacial muda a equação
Para Rogério Takayanagi, vice-presidente de Engenharia e Serviços ao Cliente da Vivo, a principal mudança está na redução do custo para colocar infraestrutura em órbita, fator que vem alterando a viabilidade econômica de diversos projetos. “O preço de botar coisa no espaço despencou. Algumas coisas que antigamente eram muito de nicho começam a entrar no mercado”, disse.
Segundo ele, esse movimento já afeta não apenas os serviços D2D, mas também aplicações de transporte e backhaul. Em determinadas situações, soluções satelitais começam a competir economicamente com alternativas terrestres tradicionalmente utilizadas pelas operadoras.
A expectativa é que a tecnologia seja incorporada gradualmente às arquiteturas das redes móveis, principalmente para complementar a cobertura em regiões onde a construção de infraestrutura terrestre apresenta baixa atratividade econômica.
“Hoje a gente tem uma pressão grande por cobertura de rodovias, e rodovia não dá dinheiro na rodovia, dá dinheiro por diferenciação”, avaliou. E acrescentou: “Amanhã, esses complementos de cobertura vão ser cada vez mais parte das redes.”
Embora a queda de custos seja vista como um fator positivo, os executivos demonstraram preocupação com a concentração da nova cadeia espacial.
Takayanagi observou que diversas constelações atualmente em implantação dependem da SpaceX para lançamento de satélites, o que cria um cenário de forte dependência de um único fornecedor de acesso ao espaço. Na avaliação dele, o amadurecimento do mercado exigirá o surgimento de alternativas capazes de ampliar a competição tanto em serviços D2D, quanto em conectividade satelital.
Parceria inevitável
O CTO da Claro, André Sarcinelli, ressaltou que os modelos atualmente em desenvolvimento continuam fortemente vinculados às operadoras móveis. Segundo ele, as primeiras soluções comerciais utilizam frequências já licenciadas às operadoras terrestres, o que exige acordos de compartilhamento e interconexão. “Quem iniciou a operação está usando as frequências das operadoras móveis que hoje são licenciadas. Então precisa de acordos para poder fazer a interconexão”, pontuou.
Por essa razão, Sarcinelli acredita que os operadores satelitais dificilmente atuarão de forma totalmente independente das teles. “O modelo deles vai ser de cooperação entre operadoras”, defendeu.
O executivo também lembrou que as constelações exigem ciclos contínuos de renovação de satélites e uma infraestrutura terrestre robusta, tornando o negócio intensivo em capital.
Outro ponto destacado pela Claro é a complexidade regulatória do D2D. Como os satélites operam sobre diversos países e utilizam recursos escassos de espectro e órbita, a expansão desses serviços depende de coordenação internacional e de regras nacionais para autorização das operações.
Para Sarcinelli, temas como uso de frequências, gateways, roaming e exploração comercial ainda precisarão ser harmonizados pelos reguladores. “Esse é um assunto que realmente não dá para falar de desenvolvimento sem regulação.”
Apesar do potencial de ampliar cobertura, os participantes do painel descartaram a hipótese de substituição das redes móveis tradicionais.
Sarcinelli observou que ambientes fechados continuarão exigindo infraestrutura dedicada e que as limitações físicas da propagação do sinal permanecem presentes mesmo com a evolução das constelações.
“Ele vai resolver o problema do indoor? Não vai. Existe uma questão de física importante aí.”
V.tal vê crescimento da demanda por gateways
A expansão das constelações já produz reflexos sobre a infraestrutura terrestre. Segundo Lucas Aliberti, CCO da V.tal, operadores de satélites tornaram-se clientes relevantes da companhia por meio da contratação de conectividade para gateways.
De acordo com o executivo, essas instalações exigem conexões de altíssima capacidade e levaram a empresa a estruturar uma área dedicada ao atendimento desse segmento.
A atividade, segundo Aliberti, não fazia parte da estratégia original da companhia, mas passou a representar uma nova frente de crescimento à medida que novas constelações começaram a ser implantadas.




