Angola Cables entra na nuvem: “Queremos ser conhecidos como solutions provider”, diz CEO

Ângelo Gama, presidente da Angola Cables, conta que a operadora de cabos submarinos está entrando nos mercados de nuvem e serviços gerenciados, acaba de lançar a marca Cloud2Brasil e promete investimento de US$ 40 milhões no data center da Praia do Futuro, no Ceará, em 2023.

Ângelo Gama, CEO da Angola Cables e Cloud2Brasil - divulgação

Mais conhecida pelos cabos submarinos que chegam a Fortaleza (CE) vindos da África e da América do Norte, a Angola Cables vem redefinindo sua estratégia de crescimento e entrou agora no mercado de nuvem e serviços gerenciados, com a marca Cloud2Brasil por aqui.

O Tele.Síntese conversou com Ângelo Gama (na foto acima), presidente da empresa, que explicou os motivos da reestruturação, o que espera para os próximos anos, e o futuro do data center localizado na Praia do Futuro.

O executivo contou que o mercado de conectividade está “commoditizado”. Daí a entrada no novo segmento, em parceria com a Zadara, um dos maiores fornecedores globais de serviços em nuvem. A oferta de nuvem e serviços gerenciados será responsável por um terço das receitas do grupo em 2025, projeta.

No Brasil, o novo modelo foi lançado em evento nesta semana. A operadora criou a marca Cloud2Brasil, utilizada no segmento de nuvem, e criou inicialmente pacote de serviços destinados a startups.

A infraestrutura da Angola Cables segue relevante. Segundo Gama, a empresa continua expandindo acordos de interconexão em todo o mundo – o mais recente permite a troca de tráfego em Singapura. No Brasil, a empresa vai ampliar o data center de Fortaleza, investindo US$ 40 milhões no próximo ano.

Confira os melhores trechos da conversa:

Tele.Síntese: Angola Cables anunciou esta semana a entrada no segmento de nuvem. Por quê?
Ângelo Gama, presidente da Angola Cables – Estamos realizando uma reorganização da Angola Cables. Já não somos mais uma empresa restrita aos mercados de Angola e Brasil. Estamos abrindo escritório na Nigéria, temos na África do Sul, na Europa, na Ásia. Sendo uma empresa internacional, decidimos tornar nosso jeito de fazer negócios mais local, e sermos brasileiros no Brasil, europeus na Europa etc.

A entrada no segmento de nuvem significa que está difícil vender capacidade no atacado internacional?
Gama – 
Não. Nosso desafio é deixar de ser wholesale [atacadistas] e passar a vender serviços. No Brasil, estamos trazendo esta semana propostas para não apenas fornecermos comunicações e data center. Um dos primeiros serviço que vamos lançar é uma seção de cloud chamada Cloud2Brasil, com toda a cloud e managed services relacionados.

Pensando em infraestrutura, temos várias valências que acrescentam muito aos provedores, operadores, setor empresarial, financeiro ou de games, como latência e rede internacional. Então, alinhando os serviços, acho que temos um produto de nuvem diferenciado no mercado, que vai garantir a migração para o modelo de service provider.

Mas isso implica desafios internos, como criar novas áreas estruturais, mudar a mentalidade dos clientes para deixarem de ver na gente uma empresa de wholesale ou data center. Entramos na fase de trânsito, e faremos parte desse clube das empresas de serviços em nuvem.

É um mercado mais concorrido ou menos que o trânsito internacional?
Gama – Temos gigantes neste mercado, em cloud. Temos grandes provedores internacionais, mas vamos entrar com solução nossa. Os grandes Amazon, Azure, estão em todos os continentes. Mas penso que falta a eles a oferta localizada, a aproximação junto ao cliente, soluções dedicadas, o pagamento em moeda local, a suíte de produtos e aplicações. Vamos ter tudo isso disponível e vamos diminuir muito as barreiras de entrada, do início de operação de startups.

Então realmente achamos que existem no mercado ainda espaços para fazermos algum diferença. Além disso, temos toda a capacidade como data carrier, provedor de telecomunicações, colocation.

Temos a capacidade de o cliente não apenas ver nossa cloud, como já estarmos interligados em todo o mundo com empresas de conteúdo, fintechs etc. A cereja do bolo será a rede internacional.

No mundo, grandes operadoras rentabilizam infraestrutura, com segregação de ativos. Vocês pensam nisso? Vão manter os cabos submarinos como ativo próprio?
Gama – Amazon e Microsoft têm cabos submarinos próprios, e não são poucos. Nosso negócio tradicional não deixará de ser tradicional. Juntamos dois negócios em um negócio único, e vamos potencializar a venda de soluções digitais. Fizemos conectividade, interconexão, e agora entramos em cloud. Estamos a olhar um segmento esquecido, de startups e pequenas e médias empresas.
Já estamos definindo produtos para atender este tipo de mercado.

Não passa pela nossa cabeça vender infraestruturas, não nessa fase. Passa pela nossa cabeça ter serviços complementares para os clientes. Usar o que já temos e sermos vistos como solutions provider.

Querem ganhar como das startups, que geralmente têm o desafio de se provar comercialmente?
Gama – Com as promessas de rentabilidade futura. Se diminuirmos os encargos sobre elas, então conseguem dinamizar os negócios e ter mais chances de sucesso. Então conseguimos transformar o custo de estrutura em um custo de venda, proporcional à base de clientes. Com essa transformação, já estamos a suportar o custo da startup.

Pelo que você diz, a Angola Cables está tomando mais cara de integradoras de seluções digitais. Quais são os parceiros?
Gama – 
A gente está entrando no mercado com parcerias, e podemos ter oferta diferenciada. Aqueles que estão a atuar já estruturaram o mercado, e não queremos reinventar a roda. O mais fácil é identificar quem são esses solutions providers com os quais os clientes identificam valor. A nossa cloud foi criada em parceria com a Zadara, que é global.

Adicionamos à solução a nossa cara, recurso de pagamentos automáticos. Temos essa possibilidade de permitir aos nossos clientes todo o serviço automatizado, temos um gestor de conta designado para fazer todo o trabalho para o cliente. A plataforma está integrada com outras clouds, como AWS e Azure. E não precisa usar o data center da Angola Cables em Fortaleza. A Angola Cables tem também SD-WAN, vamos lançar no Brasil. Então o mercado tecnológico é de inovação constante.

Como é nuvem, a Cloud2Brasil que falou antes tem alcance nacional?
Gama – Vamos começar pelo Nordeste as vendas dessa solução de cloud. Mas dada a capilaridade, a acessibilidade online, o alcance é para todo o território brasileiro.

Como vão concorrer com as gigantes?
Gama – Não vamos atacar o preço. Não será uma cesta de cloud cara, estamos mais baixos que a média, mas será diferenciado. Depois vamos ofertas em São Paulo e grandes capitais.

Esse negócio vai superar o negócio tradicional de vocês?
Gama – Até 2025, sabemos que não vai. Queremos que seja 30% do faturamento da Angola Cables até lá. Temos muita presença em cabos, data centers, esse é nosso core business. Então não será fácil construir um negócio que em 5 anos supere a origem da Angola Cables. Temos que começar para estes novos serviços. Portanto, em 3 anos, representará mais de 30% das receitas.

Os investimentos da Angola Cables em infraestrutura própria vão parar ou continuar?
Gama – Em cabos submarinos, já paramos, já construímos muito. Podemos entrar em parcerias no mundo inteiro, mas construir, paramos.

Nosso datacenter em Fortaleza está praticamente cheio e vamos precisar expandir nossa capacidade, que vai praticamente triplicar, pois vamos instalar cerca de 500 novos racks. Para isso, vamos investir cerca de US$ 40 milhões ao longo dos próximos 12 meses.

O de Luanda também está completamente cheio. Então teremos as expansões dessas estruturas. E temos que aumentar a capilaridade da rede. Acabamos de lançar pontos de presença em Singapura e Los Angeles, para criar rotas alternativas ao sistema de transmissão do mundo. Ainda não existe empresa que transmite da Ásia até o Brasil, tudo com infraestrutura própria, com capacidade comprada como nós. Isso é muito importante para atender os BRICS. Conseguimos criar uma infra no hemisfério sul, sem ter que passar pelo hemisfério Norte.

Quais os dados recentes de crescimento da empresa?

Gama – Somos, no Ceará, o terceiro maior provedor local em termos volume no IX de Fortaleza, atrás apenas de Mega e Brisanet. A ideia agora é marcar o posicionamento, entrar em novos segmentos, não ficar só no wholesale, mas através dos parceiros, chegar no B2B.

Em Fortaleza temos presença forte, queremos mostrar que temos serviços que a concorrência não tem, que o fluxo de informação pode ser feito com segurança, sem passar pelo Hemisfério Norte. Queremos aumentar a capilaridade da rede. Queremos ser conhecidos como um operador com soluções digitais diferenciadas.

Até aqui, conseguimos, somente entre ISPs, 200 clientes no Brasil. O que representou crescimento de mais de 100% nos últimos 2 anos. Em termos de tráfego, de 2019 para 2022, fomos de 200 Gbps para mais de 1,6 Tbps. É um crescimento de 8x. Representa em termos de faturação muito mais, mas claro que não foi de 8x.

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Rafael Bucco

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