Além do hyperscale: data centers regionais também vão sustentar a IA

Líderes do setor destacaram que a inteligência artificial amplia a pressão por descentralização e construção mais intensa de data centers regionais para edge computing

 

A promessa da “era da latência zero” dominou o debate de um dos painéis do “Data Center AI & Cloud Summit”, evento sobre o futuro da infraestrutura e da inovação digitais promovido pela TeleSíntese hoje (26). Executivos de diferentes segmentos — de fabricantes de fibra óptica a provedores regionais, passando por gigantes globais de tecnologia — convergiram em um ponto: a inteligência artificial, combinada ao avanço do Edge Computing, está exigindo uma nova arquitetura de data centers, interconexão mais robusta e modelos de negócios capazes de levar processamento para mais perto do usuário.

Na mediação, Paulo José Spaccaquerche, presidente da Associação Brasileira de Internet das Coisas (ABINC), destacou a importância de integrar IA e edge computing em um ecossistema seguro e descentralizado. Ele provocou os participantes a refletirem sobre como conciliar eficiência, segurança e novas aplicações em uma rede mais distribuída, lembrando que o equilíbrio entre tecnologia e negócios será decisivo para a sustentabilidade da transformação digital.

Joselito Bergamaschine, vice-presidente da Atlantic Data Centers, ressaltou que 90% da capacidade instalada de data centers no país ainda está concentrada no Sudeste. Segundo ele, a descentralização é um caminho inevitável para garantir resiliência e eficiência: “A missão principal do nosso data center é regionalizar o conteúdo e descentralizar a infraestrutura”, afirmou, ao destacar a construção em Recife de um projeto classificado como medium scale edge, considerado o único em andamento nesse porte no Brasil. O objetivo é oferecer redundância e menor latência a partir do Nordeste, com tempo de resposta de até 14 milissegundos para atender toda a região.

A necessidade de distribuir infraestrutura também encontra respaldo nos provedores regionais de internet. Para Gisele Boni, diretora de enterprise na Supercomm, os ISPs já se consolidaram como protagonistas da última milha: “Segundo a Anatel, 64% do investimento na última milha está na mão dos ISPs e 93% do acesso em localidades com até 30 mil habitantes está com eles”. Esse alcance, disse, abre espaço para que as pequenas e médias empresas avancem na oferta de serviços de maior valor agregado, como data centers regionais e soluções de segurança. Uma pesquisa realizada pela companhia indica que 64% dos ISPs já iniciaram ou planejam investir em estruturas próprias de data center.

Do lado da infraestrutura crítica, Frederico Neves, diretor de serviços e tecnologia do NIC.br, lembrou que a rede de pontos de troca de tráfego hoje cobre 38 regiões metropolitanas no Brasil, com destaque para São Paulo, que abriga o maior internet exchange do mundo. Ele destacou que a busca pela baixa latência já é realidade: “Não vou dizer que estamos com latência zero, isso não existe, mas trabalhamos com grandezas da ordem de milissegundos”, afirmou, citando investimentos em expansão e simplificação de redes que devem estimular mais provedores a trocar tráfego fora da capital paulista.

A infraestrutura de fibras também foi apontada como gargalo. Flávio Marques, gerente sênior de marketing e comunicações na Lightera, ressaltou que a eficiência da transmissão é diretamente proporcional à eficiência dos data centers. Ele destacou inovações como a fibra oca, capaz de reduzir em até 30% a latência em comparação com fibras convencionais. Mas alertou que, mesmo com avanços tecnológicos, a interconexão entre data centers ainda está “muito aquém do que é necessário” para sustentar as novas aplicações de inteligência artificial e serviços distribuídos.

A visão das grandes fornecedoras de tecnologia também esteve presente. Marcelo Pivovar, CTO da Oracle Brasil, destacou a importância de aproximar a inteligência artificial da sociedade, citando o centro de inovação da companhia em São Paulo como um laboratório vivo. O espaço recebe estudantes, startups e clientes corporativos para experimentar aplicações de IA em diferentes setores, como lojas autônomas, hotéis com check-in via reconhecimento facial e ambientes industriais. “Muitas vezes a AI é algo subjetivo, etéreo. O laboratório mostra na prática como ela resolve problemas complexos da indústria de maneira simples”, afirmou.

Representando a Nokia, Adriano Silveira, diretor BizDev IP Enterprise Latam da companhia, reforçou a missão crítica das redes de conectividade diante da distribuição crescente de dados por data centers regionais. Ele lembrou que o desafio não é apenas tecnológico, mas também de orquestração: redes inteligentes precisarão balancear cargas e se autoprovisionar de forma ágil, conciliando modelos centralizados e distribuídos. Para o executivo, a eficiência será o diferencial para viabilizar aplicações sociais e empresariais em grande escala.

O tema da segurança foi consenso entre todos os participantes. Bergamaschine, da Atlantic Data Centers, frisou que não há espaço para projetos de data center sem regras rígidas de proteção física e lógica, enquanto Gisele, da Supercomm, chamou atenção para a falta de mão de obra especializada como um dos maiores desafios do setor.  Neves, do do NIC.br, reforçou a necessidade de adaptação rápida dos protocolos criptográficos, e Marques, da Lightera,  alertou que a pulverização de serviços no edge aumenta a complexidade da proteção. Já Pivovar lembrou que a Oracle desenvolveu dispositivos de edge em parceria com as forças armadas norte-americanas, usados hoje em setores como mineração e petróleo, com criptografia nativa e resiliência física comparável a caixas-pretas de aviação.

Como resumiu Silveira, da Nokia, o desafio não é apenas tecnológico, mas também de orquestração: redes inteligentes precisarão balancear cargas e se autoprovisionar de forma ágil, conciliando modelos centralizados e distribuídos. Já Neves, do NIC.br, destacou que a eficiência deve permear desde a infraestrutura até a operação: “Quando melhoro a eficiência desses sistemas, não estou reduzindo só o custo, mas buscando atender melhor às aplicações — sejam elas distribuídas ou centralizadas”.

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Simone Rodrigues

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