Por que o Brasil precisa olhar para cabos Submarinos como ativos estratégicos
Em um mundo orientado por dados, há uma infraestrutura que sustenta praticamente toda a economia digital global: os cabos submarinos, avalia Augusto Salomon

Por Augusto Salomon* – Em um mundo cada vez mais orientado por dados, há uma infraestrutura invisível que sustenta praticamente toda a economia digital global: os cabos submarinos. Embora pouco visíveis para a sociedade, eles são responsáveis por mais de 95% a 99% do tráfego internacional de dados, incluindo comunicações, operações financeiras, serviços em nuvem e aplicações de inteligência artificial.
Diante desse cenário, a discussão sobre cabos submarinos deixou de ser apenas técnica ou setorial. Ela se tornou estratégica. E o Brasil, como uma das maiores economias digitais emergentes do mundo, precisa urgentemente reposicionar seu olhar sobre essa infraestrutura crítica.
Esse debate ganha ainda mais urgência quando analisado à luz das tensões geopolíticas recentes, em especial o histórico de atritos entre Estados Unidos e Irã. A escalada de conflitos no Oriente Médio, região que concentra importantes rotas marítimas e pontos de passagem de cabos, expõe um risco frequentemente subestimado: a vulnerabilidade física e estratégica das redes submarinas em cenários de guerra ou instabilidade.
O Golfo Pérsico e áreas adjacentes são corredores críticos por onde passam diversos sistemas de cabos que conectam a Ásia, a Europa e o Oriente Médio. Em um eventual agravamento de conflitos, seja por ações militares diretas, sabotagens ou incidentes colaterais, há risco concreto de interrupção dessas rotas digitais. Diferentemente de satélites, os cabos submarinos são ativos físicos concentrados em trajetórias relativamente conhecidas, o que os torna suscetíveis a danos deliberados ou acidentais.
Além disso, especialistas em segurança internacional já tratam cabos submarinos como ativos estratégicos comparáveis a oleodutos e gasodutos. Em contextos de guerra híbrida, que combinam ações militares, cibernéticas e informacionais, a interrupção de conectividade pode gerar impactos sistêmicos: desde a instabilidade de mercados financeiros globais até a degradação de serviços críticos baseados em nuvem.
O histórico recente mostra que conflitos geopolíticos têm ampliado a preocupação com a proteção dessa infraestrutura. Países vêm reforçando a vigilância naval, investindo em redundância de rotas e discutindo mecanismos de governança internacional para proteção de cabos. A tensão entre Estados Unidos e Irã reforça essa tendência ao evidenciar que regiões estratégicas podem se tornar pontos de estrangulamento digital global.
Para o Brasil, as implicações são diretas. Embora o país não esteja no epicentro desses conflitos, sua economia digital depende fortemente da conectividade internacional, especialmente com a América do Norte e a Europa. Qualquer disrupção relevante em rotas globais pode impactar latência, custos de tráfego, estabilidade de serviços e até a competitividade de empresas brasileiras no cenário global.
Nesse contexto, torna-se ainda mais evidente a necessidade de uma estratégia nacional robusta para cabos submarinos, que inclua diversificação de rotas, fortalecimento de hubs regionais, proteção física e cibernética da infraestrutura e maior articulação entre setor público e privado. Como dados são ativos estratégicos, garantir a resiliência das “autoestradas digitais” não é apenas uma questão técnica, é uma questão de soberania, segurança e desenvolvimento econômico.
O sustentáculo da economia digital
A transformação digital, impulsionada por cloud, inteligência artificial, streaming e serviços financeiros digitais, depende diretamente da capacidade de transportar dados com alta velocidade, baixa latência e confiabilidade.
Estudos recentes apontam que os cabos submarinos movimentam trilhões de dólares diariamente em transações financeiras globais, evidenciando seu papel central na economia contemporânea. Relatórios de mercado de 2025 reforçam que o crescimento exponencial do tráfego de dados continuará pressionando essa infraestrutura.
Segundo análises de consultorias como Gartner e estudos setoriais amplamente citados pela indústria, a expansão de workloads de IA, edge computing e serviços digitais intensivos em dados está criando uma demanda por rotas mais resilientes e diversificadas. Ou seja, não se trata apenas de conectividade, trata-se de competitividade econômica.
O Brasil como hub natural é ainda subaproveitado
O Brasil ocupa uma posição geográfica privilegiada no Atlântico Sul, com destaque para Fortaleza, um dos principais hubs de cabos submarinos do mundo. A região concentra dezenas de sistemas que conectam o país diretamente à América do Norte, Europa e África, formando um ponto estratégico para o tráfego global.
Esse posicionamento coloca o país em uma condição única para se consolidar como um hub digital internacional. No entanto, essa vantagem ainda é subexplorada. A ausência de uma política coordenada de longo prazo para cabos submarinos, que integre conectividade, data centers, energia e regulação, limita o potencial do Brasil de capturar mais valor dessa infraestrutura.
Soberania digital, riscos geopolíticos e resiliência
Eventos recentes reforçam essa preocupação. Incidentes envolvendo danos a cabos, acidentais ou intencionais, evidenciam a vulnerabilidade dessa rede e o impacto potencial sobre economias inteiras. Nesse contexto, cabos submarinos devem ser tratados como ativos estratégicos, assim como energia, petróleo e telecomunicações terrestres.
A crescente dependência digital exige mais do que capacidade: exige resiliência. Hoje, mais de 1,4 milhão de quilômetros de cabos submarinos cruzam os oceanos, sustentando a conectividade global. No entanto, falhas em pontos críticos podem causar impactos em cascata, afetando serviços essenciais, mercados financeiros e operações empresariais.
Relatórios recentes de instituições internacionais como o International Cable Protection Committee (ICPC) e análises de mercado destacam três prioridades para os próximos anos: 1) Diversificação de rotas; 2) Proteção física e monitoramento avançado e 3) Integração com infraestruturas terrestres e data centers. Para o Brasil, isso significa investir não apenas na chegada de novos cabos, mas na criação de um ecossistema robusto de conectividade.
O papel do Brasil na nova economia digital
O país vive uma oportunidade histórica. O crescimento de data centers, a expansão da economia digital e a demanda por serviços de baixa latência colocam o Brasil no radar global de investimentos. No entanto, capturar esse potencial exige uma mudança de mentalidade: cabos submarinos não são apenas infraestrutura de telecom, são ativos estratégicos de desenvolvimento econômico. E que passa por políticas públicas claras e coordenadas, ambiente regulatório previsível, incentivos à expansão e diversificação de rotas, proteção de hubs críticos como Fortaleza e integração com estratégias de nuvem e IA.
As empresas do setor têm papel central nesse processo, ao conectar mercados, promover redundância e apoiar a transformação digital da região. A economia digital não existe sem conectividade global e a conectividade global depende dos cabos submarinos. Ignorar essa realidade é comprometer o futuro competitivo do Brasil. Reconhecê-la, por outro lado, é abrir caminho para um novo ciclo de crescimento, inovação e protagonismo internacional. Mais do que nunca, é hora de tirar os cabos submarinos da invisibilidade e colocá-los no centro da estratégia nacional.
* Augusto Salomon é Presidente Brasil da Cirion Technologies




