IA exige redes mais confiáveis e padronizadas
A explosão no volume de dados e o surgimento de novas aplicações exigem processamento distribuído e respostas em tempo real, defende Ricardo Caracillo, diretor LATAM de desenvolvimento de negócios da Nokia

O avanço acelerado da inteligência artificial (IA) está transformando não só os modelos de negócios, mas também a própria infraestrutura digital que os sustenta, como as redes. No “Data Center AI & Cloud Summit”, evento sobre o futuro da infraestrutura e da inovação digitais promovido pelo portal Tele.Síntese, realizado hoje, 26, em Santana de Parnaíba, SP, Ricardo Caine Caracillo, diretor LATAM de engenharia de clientes e desenvolvimento de negócios da Nokia, trouxe à tona os desafios técnicos e estratégicos que redes e data centers enfrentam ao se tornarem o alicerce de uma sociedade cada vez mais orientada por dados e algoritmos.
Para Caracillo, a IA impõe um novo paradigma às redes de comunicação. “Essas redes não podem parar um minuto. Elas não podem perder pacotes transmitidos, qualquer perda aumenta o tempo de processamento”, destacou. Em um cenário em que o tempo de resposta e a confiabilidade são diferenciais estratégicos, as redes que sustentam os data centers precisam operar com latência medida em nanosegundos — e, ao mesmo tempo, garantir segurança e integridade de dados sensíveis.
Nesse contexto, o executivo enfatizou a importância das chamadas redes de missão crítica — aquelas utilizadas em setores como saúde, segurança pública, transporte e indústrias pesadas. “São redes onde, em alguns casos, vidas humanas dependem do seu funcionamento. E é essa expertise que a Nokia traz agora para o universo dos data centers”, afirmou.
Distribuição, edge computing e a pressão por eficiência energética
A explosão no volume de dados e o surgimento de novas aplicações exigem processamento distribuído e respostas em tempo real — o que impulsiona a expansão dos data centers de borda (edge). Segundo Caracillo, essa arquitetura reduz a pressão sobre recursos como energia elétrica e refrigeração, ao mesmo tempo que atende demandas críticas como veículos autônomos e análises de imagem em tempo real.
“A gente está entrando nas eras das redes do nanosegundo. E o crescimento em data centers edge também contribui para descentralizar os investimentos, evitando a concentração em poucos países e tornando o ecossistema mais resiliente”, analisou.
Mercado em ebulição: meio trilhão de dólares em jogo
As projeções compartilhadas por Caracillo revelam o tamanho da oportunidade. Redes voltadas ao backend (treinamento de IA e multi-cloud networking) devem movimentar US$ 10 bilhões nos próximos três anos, com taxa de crescimento anual de 45%. Já as redes tradicionais, voltadas à inferência e aplicações corporativas, formam um mercado quatro vezes maior, com crescimento estável de 9% ao ano.
Esses números não apenas evidenciam a escalada de investimentos, como também reforçam a necessidade de redes mais seguras, resilientes e autogerenciáveis. “Essas infraestruturas, somadas, fazem parte de um contexto ainda mais amplo: os investimentos globais em IA devem alcançar cerca de US$ 500 bilhões por ano, e as redes respondem por quase 10% desse total. Estamos falando de uma infraestrutura que precisa crescer, se adaptar e garantir confiabilidade sem precedentes”, disse Caracillo.
Confiabilidade
Durante sua apresentação, o executivo da Nokia defendeu que confiabilidade é o principal pilar da infraestrutura digital na era da IA. E isso depende de três fatores-chave: arquitetura, qualidade e operação.
Ele explicou que arquitetura das redes modernas, baseada no modelo Spine-Leaf, garante conexões não bloqueantes e altamente escaláveis entre os diversos pontos da rede, promovendo desempenho consistente mesmo em ambientes com tráfego intenso. No entanto, alcançar confiabilidade vai além do projeto estrutural: é preciso consolidar uma cultura rigorosa de qualidade no desenvolvimento.
“Para cada pessoa que desenvolve, outra precisa testar. Esse equilíbrio é fundamental. O mercado muitas vezes acelera demais a inovação, priorizando a entrega de novas funcionalidades sem o mesmo investimento em testes. Com isso, a qualidade tende a diminuir. Mas, em ambientes de missão crítica, isso simplesmente não é aceitável”, enfatizou Caracillo.
Mesmo com tecnologias avançadas, a operação das redes ainda é vista como um ponto crítico — e muitas vezes frágil. Caracillo foi enfático ao apontar que a maioria dos erros ainda ocorre por falha humana: alterações manuais, scripts não padronizados e ausência de governança operacional. “A rede funciona melhor no fim de semana ou no Natal porque ninguém toca nela. Isso revela a fragilidade das infraestruturas atuais”.
A solução, segundo ele, não está em simplesmente automatizar os processos atuais, mas em redefinir a filosofia de operação: adotar padrões consistentes, arquitetura replicável e uma abordagem top-down, onde o sistema compreende o que precisa ser feito e configura automaticamente os dispositivos com base em definições de alto nível. “A rede funciona melhor no fim de semana ou no Natal porque ninguém toca nela. Isso revela a fragilidade das infraestruturas atuais”, provocou. Em resposta, ele propôs uma mudança de filosofia: “Não basta automatizar. Automação amplifica processos. É preciso primeiro padronizar, confiar e só depois automatizar”.
O executivo também destacou a visão da Nokia para o futuro: redes inteligentes, capazes de “pensar, sentir e agir” de forma personalizada. “Utilizando IA, podemos criar redes que sentem seu próprio funcionamento, interpretam em tempo real e se ajustam automaticamente às necessidades do negócio. A inteligência artificial só entregará todo seu potencial se sustentada por uma infraestrutura de redes confiável e segura”, finalizou.


