Governo e empresas modernizam infraestrutura com foco em soberania digital
Anatel acrescenta que nova regulação voltada a data centers vai mirar exclusivamente aqueles que contribuem para a sustentação das telecomunicações

No “Data Center AI & Cloud Summit”, evento sobre o futuro da infraestrutura e da inovação digitais promovido nesta segunda-feira, 26, pelo Tele.Síntese, um painel estratégico reuniu lideranças do setor público e privado para discutir os caminhos da modernização de infraestruturas legadas e a construção de uma nuvem governamental soberana. O encontro revelou não só desafios técnicos, mas também os caminhos reais para o fortalecimento da soberania digital brasileira, com iniciativas concretas que vão da virtualização da infraestrutura ao desenvolvimento de tecnologias próprias operadas por servidores públicos.
Um dos destaques foi a apresentação do Serpro, que mostrou como o conceito de “nuvem soberana” deixou de ser apenas um ideal político e se transformou em uma estratégia técnica e operacional em múltiplos níveis. “Hoje, o Serpro opera stacks da Google, Huawei e AWS dentro dos seus próprios data centers, com profissionais públicos. Isso garante soberania sobre os dados e as operações”, afirmou o Thiago Carlos de Sousa Oliveira, superintendente de centro de dados no Serpro.
Ele destacou ainda o projeto Estaleiro — uma plataforma que orquestra contêineres e permite que aplicações governamentais rodem tanto em ambientes de nuvem pública quanto em infraestrutura própria. “Nossa stack Huawei foi atualizada recentemente, totalmente offline, com equipe própria. Foi o primeiro caso do mundo com essa abordagem”, pontuou, reforçando o foco em autonomia tecnológica e segurança nacional.
Esferas públicas
No plano municipal, a Prodam-SP vem avançando na modernização de sua estrutura com a migração de redes MPLS para SD-WAN e investimentos em monitoramento ativo. “Monitoramos aplicações, links e ativos em tempo real. O objetivo é dar transparência total para os órgãos e qualidade ao cidadão”, explicou o diretor Mateus Marçal.
A empresa atua hoje com dois data centers próprios e busca expandir parcerias com Telebras, Serpro e Prodesp para garantir que os dados dos cidadãos fiquem armazenados exclusivamente em data centers de governo, mais um exemplo de busca por uma abordagem soberana. “Defendemos um cadastro único compartilhado entre União, estados e municípios, com mecanismos de proteção baseados em regulação pública”, afirmou.
Na esfera federal, a Telebras também está redefinindo seu papel. Tradicionalmente conhecida pela conexão via satélite e backbone óptico, a estatal agora amplia sua atuação para serviços de valor agregado em nuvem e cibersegurança. “Estamos modernizando nosso data center Tier 4 em Brasília e atraindo novos clientes para dentro da estrutura. O objetivo é subir na cadeia de valor e entregar soluções completas ao governo”, afirmou Levi Figueiredo, diretor comercial da estatal.
Segundo ele, a rede privativa da Telebras já conecta clientes com monitoramento em tempo real, e agora passa a incluir serviços como IoT, monitoramento climático e soluções urbanas. “Cada vez mais, nosso data center deixa de ser apenas estrutura e passa a ser diferencial competitivo na entrega de políticas públicas”, completou.
Do lado privado, a Magalu Cloud apresentou-se como uma alternativa nacional aos grandes provedores estrangeiros. “60% do tráfego em nuvem no Brasil roda fora do país. Isso é insustentável. Criamos uma nuvem nacional para dar acesso a empresas e governos sem o ‘pedágio’ de até 70% a mais por rodar no Brasil”, afirmou Alexandre Mandl, diretor de receita da companhia.
Ele alertou ainda para os riscos de contratos com jurisdição estrangeira e para legislações como o Cloud Act americano, que permitem o acesso de outros governos a dados armazenados fora. “Com a Magalu Cloud, o dado fica aqui. Podemos, inclusive, abrir o código-fonte para o contratante. Isso é soberania tecnológica”, disse, também em linha com a defesa de adoção do critério para nuvem soberana no armazenamento e uso dos dados.
Regulação: foco está na infraestrutura crítica
A Anatel também participou do debate, esclarecendo os critérios de regulação que passarão a ser aplicados sobre data centers envolvidos na oferta de serviços de telecomunicações. “Não vamos regular todos os data centers, mas sim as infraestruturas críticas que impactam a prestação do serviço. A preocupação é com a continuidade, segurança física e cibernética”, explicou José Umberto Sverzut, gerente regional substituto no Estado de São Paulo, da Anatel.
Segundo ele, a agência já trabalha em parceria com universidades para desenvolver um procedimento operacional até março de 2026. “Haverá consulta pública, e os data centers terão mais de três anos para se adaptar. Não é um custo elevado. A prioridade é garantir que o serviço não caia”, reforçou.
Um ponto sensível do painel foi a dificuldade enfrentada por prefeituras na modernização de suas estruturas legadas. A solução, segundo os participantes, passa pela capilaridade das redes federais e pelo modelo de serviços compartilhados. “O grande desafio está na última milha. Mas o Serpro, a Telebras e outros parceiros estão trabalhando com municípios pequenos, oferecendo soluções em escala e conectividade via rede segura de governo”, afirmou o executivo do Serpro.
A Telebras, por sua vez, destacou que vem abrindo suas estruturas para prefeitos, deputados e representantes de estatais. “Queremos que todos conheçam nossa infraestrutura. Ela está pronta para receber demandas, com capacidade, segurança e tecnologia”, concluiu Figueiredo.



