Energia desafia expansão de data centers de IA
Painel no Capacity LATAM mostra avanço dos hubs de IA na América Latina, mas aponta gargalos em energia, subestações, latência e execução

A expansão de hubs de inteligência artificial começa a ganhar escala na América Latina, com novos projetos de data centers em mercados como Brasil, Chile e México. No entanto, executivos do setor afirmaram que a consolidação dessa nova infraestrutura depende menos do volume de anúncios e mais da capacidade de resolver gargalos de energia, conectividade, cadeia de suprimentos e execução de projetos. O debate ocorreu na keynote “The Rise of Latin America’s Next-Generation AI Hubs”, durante o Capacity LATAM.
Participaram da discussão Ricardo Caine, diretor de redes IP para a América Latina da Nokia; Robson Pacheco, diretor de vendas estratégicas da Vertiv; Elena Winters, vice-presidente de negócios internacionais da Elea Data Centers; Ivo Ivanov, CEO da DE-CIX; e José Eduardo Quintella, CEO da Terranova. O painel foi moderado por Pedro Ozores Figueiredo, ICT Managing Editor do BN Americas.
Densidade sobe e muda o desenho dos data centers
Um dos pontos centrais do painel foi a mudança técnica provocada pelas cargas de IA. Segundo Robson Pacheco, a indústria saiu de racks com 5 kW a 10 kW para estruturas entre 70 kW e 100 kW por rack, o que exige mudanças de arquitetura, com maior uso de resfriamento líquido, novos modelos de UPS e sistemas mais sofisticados de monitoramento.
A avaliação do painel foi que esse novo ciclo não se resume à construção de data centers maiores. A exigência agora é por instalações mais preparadas para alta densidade computacional, com resfriamento, energia e controle operacional compatíveis com cargas mais intensas. “Precisamos pensar em novas soluções de resfriamento, novos modelos de UPS e uma infraestrutura completamente diferente”, disse Pacheco.
Energia e prazo de implantação entram no centro da disputa
Os executivos também afastaram a leitura de que o setor viva uma bolha. Elena Winters afirmou que a discussão ainda volta ao mesmo ponto: interconexão com a rede elétrica e uma estratégia de energia desenhada para os próximos cinco a dez anos. Ivo Ivanov disse não acreditar em “bolha de IA” e afirmou que a tecnologia representa a próxima etapa da inovação digital, com pressão adicional sobre a demanda energética global.
Ele destacou que a demanda global por chips e infraestrutura já contratada indica uma expansão significativa do consumo de energia para processamento de IA. “Os chips já encomendados vão exigir algo em torno de 160 gigawatts adicionais de energia no mundo”, disse. Na visão do executivo, países com disponibilidade de energia renovável — como o Brasil — podem se beneficiar dessa expansão. “Quem tiver recursos energéticos, especialmente verdes, tem uma grande oportunidade de crescimento.”
No caso brasileiro, Elena afirmou que transmissão e distribuição podem se tornar gargalos e que empresas com ambição de crescer nesse mercado precisarão trabalhar com uma estratégia energética que avance além de 2030.
A questão do prazo também apareceu com força. José Eduardo Quintella disse que hyperscalers operam com janelas de 6 a 18 meses para entrada em operação, mas que equipamentos críticos como transformadores e subestações têm hoje prazo médio de entrega entre dois e três anos.
Latência exige infraestrutura distribuída
Outro eixo do debate foi a necessidade de combinar mega campi com infraestrutura distribuída, sendo decisiva para a expansão dos hubs de IA é a necessidade de baixa latência para aplicações em tempo real. Ivanov explicou que aplicações como robótica, veículos autônomos e sistemas financeiros exigem processamento próximo do usuário. “Para algumas aplicações, a infraestrutura precisa estar a menos de 150 quilômetros do usuário final. Isso é física: ninguém conseguiu superar a velocidade da luz”, afirmou o executivo.
Ele defendeu a conexão entre campi de grande porte e estruturas menores, inclusive com pequenos pontos de troca de tráfego próximos de centros comerciais, parques empresariais e zonas industriais. A tese apresentada é que o ecossistema de IA não será sustentado apenas por grandes clusters concentrados em poucos mercados. Esse cenário reforça a necessidade de uma arquitetura distribuída de data centers, combinando grandes campi com infraestrutura regional e pontos de interconexão menores. “A infraestrutura precisa ser distribuída. Não basta apenas ter grandes hubs; é preciso conectá-los a data centers menores e pontos de troca de tráfego próximos das aplicações”, disse Ivanov.
Execução rápida vira diferencial
Quintella citou o projeto da Terranova no México como exemplo de execução acelerada. Segundo ele, o resultado veio de preparação prévia, escolha de local com energia e conectividade e uma abordagem industrializada de construção, com várias frentes de trabalho em paralelo. “Tudo começa antes da construção. Escolher o local certo, com energia e conectividade, e trabalhar com parceiros locais que conhecem o ambiente faz toda a diferença”, explicou. O executivo disse que esse modelo tende a se tornar mais comum no setor.
Campinas e Rio entram no mapa dos mega-campi
O painel destacou projetos em desenvolvimento no Brasil, incluindo o hub da Elea Data Centers no Rio de Janeiro e o campus de data centers em Campinas. Segundo os executivos, o projeto de Campinas ocupa cerca de 1 milhão de metros quadrados e já possui 300 MW de energia garantida, com possibilidade de expansão para 1 GW, algo ainda raro no mercado brasileiro.
A avaliação dos participantes é que empreendimentos desse porte tendem a se tornar cada vez mais comuns à medida que a demanda por IA cresce. “Estamos vivendo um momento especial. Talvez seja o momento de implementar projetos desse porte na região”, afirmou Ricardo Caine durante o debate.
Falta de profissionais especializados
Outro desafio é a formação de profissionais especializados em data centers. Embora existam engenheiros elétricos, mecânicos e de automação disponíveis no mercado, ainda há escassez de profissionais com experiência específica em infraestrutura digital. Para Robson Pacheco, o setor precisa investir em programas de capacitação. “É essencial formar profissionais especializados em data centers e mantê-los na indústria”, afirmou.
Redata e ambiente regulatório seguem no radar
O ambiente regulatório apareceu como tema complementar. Durante a discussão, foi lembrado que o Redata segue parado no Senado. Quintella afirmou que sua aprovação ampliaria a força do ambiente de investimentos, mas acrescentou que não basta discutir incentivo tributário: o setor também precisa de marco regulatório e jurídico que dê segurança de longo prazo aos investidores. “Precisamos de um ambiente regulatório e jurídico que dê segurança para investimentos em longo prazo”, afirmou Quintella.




