Anatel vê literacia digital como gargalo da inclusão
Nilo Pasquali afirma que principal desafio deixou de ser a infraestrutura e passou a ser o desenvolvimento de habilidades digitais

Cerca de 26% dos brasileiros vivem em áreas cobertas por redes móveis, mas permanecem desconectados. Para o conselheiro da Anatel Nilo Pasquali, esse dado demonstra que o principal desafio da inclusão digital no país deixou de ser a expansão da infraestrutura e passou a ser o desenvolvimento de habilidades para que a população utilize a conectividade de forma produtiva, segura e autônoma. A avaliação foi apresentada no Digital Nation Summit Brasil, promovido pela GSMA, em São Paulo.
Segundo Pasquali, as barreiras para ampliar o acesso à internet já são conhecidas. O desafio agora é construir políticas públicas capazes de transformar cobertura em uso efetivo da conectividade.
“Quando a gente fala, por exemplo, de literacia digital, é uma das grandes barreiras, não só no Brasil, é no mundo inteiro. A grande discussão está em como superá-las, e não necessariamente identificá-las.”
Na avaliação do conselheiro, embora ainda seja necessário ampliar a cobertura em localidades remotas, infraestrutura e desenvolvimento de competências digitais precisam caminhar em paralelo. “Não adianta só levar a infraestrutura se isso não está sendo utilizado.”
A mudança de diagnóstico tem impacto direto sobre as políticas públicas. Se, na última década, o esforço concentrou-se na expansão das redes móveis e na implantação do 5G, o próximo ciclo passa a exigir iniciativas voltadas à educação digital, à segurança no ambiente online, à capacitação profissional e ao desenvolvimento de competências que permitam transformar conectividade em produtividade e acesso a direitos.
Muito além das redes sociais
Para Pasquali, a literacia digital não se resume à familiaridade com aplicativos ou redes sociais. “A gente não está falando de redes sociais. A conectividade oferece muito mais do que apenas navegação por redes sociais ou entretenimento. Ela serve para saúde, educação, para se manter informado e para o trabalho.”
Esse desafio extrapola o setor de telecomunicações e depende de uma atuação coordenada entre diferentes áreas do Estado, principalmente educação.
“Você só evolui agindo diretamente nos indivíduos. Você começa a entrar em questões de educação, grade curricular e outros setores que não são os tradicionais de telecomunicações.”
Para ele, conteúdos relacionados ao uso seguro e produtivo das tecnologias deveriam integrar a Base Nacional Comum Curricular, permitindo que novas gerações concluam a educação básica com competências digitais suficientes para aproveitar as oportunidades da economia digital.
Segurança digital também exige capacitação
Outro ponto destacado foi o aumento da exposição da população a fraudes à medida que serviços públicos e financeiros migram para o ambiente digital.
Ao citar ferramentas como Gov.br e Pix, Pasquali afirmou que ampliar o acesso sem preparar os usuários aumenta a vulnerabilidade a golpes. “Todas essas facilidades carregam um elemento que é muito pouco falado no Brasil, que é a segurança. A gente é um país com muitos golpes e fraudes. As pessoas têm que saber reconhecer que essas coisas estão acontecendo.”
Esse aprendizado não pode depender apenas de campanhas pontuais, devendo integrar o processo educacional de forma permanente.

Diagnóstico é respaldado por UIT e academia
A coordenadora de programas da UIT para as Américas, Ana Veneroso, confirmou o diagnóstico e afirmou que infraestrutura, dispositivos e habilidades digitais formam os três pilares da inclusão digital, mas destacou que o desenvolvimento de competências é hoje o componente mais complexo.
Segundo ela, a conectividade “não se transforma em inclusão” sem que as pessoas tenham capacidade de utilizar a tecnologia de forma autônoma, segura e relevante para suas necessidades cotidianas.
Já o professor Guilherme Pinheiro, do IDP, defendeu que o país passe a medir a chamada “conectividade significativa”, avaliando não apenas quem possui acesso à internet, mas como ela é utilizada para educação, trabalho, empreendedorismo e acesso a serviços públicos. Para ele, políticas públicas precisam ser desenhadas a partir de indicadores segmentados por perfil da população e região do país.
Plano Nacional de Inclusão Digital segue a mesma direção
A mudança de foco também apareceu em painel dedicado à agenda digital brasileira para 2030. Representando o Ministério das Comunicações, Juliano Stanzani informou que o relatório que servirá de base para o futuro Plano Nacional de Inclusão Digital será submetido à consulta pública e afirmou que o principal gargalo identificado pelo governo também está relacionado ao desenvolvimento de habilidades digitais.
“O Brasil precisa de um pacto pelo letramento digital da sua população”, afirmou. Segundo ele, ampliar o uso produtivo da conectividade pode gerar ganhos econômicos muito superiores aos obtidos apenas com a expansão da cobertura das redes.
Políticas permanentes
Pasquali ainda defendeu que o país adote estratégias específicas para diferentes públicos, como estudantes, trabalhadores e idosos, mas com foco na formação contínua de competências digitais.
“Se a gente não começa agora, nunca vai acontecer lá na frente. A gente só colhe frutos disso quando planta bastante cedo.”




