Anatel aponta limitações técnicas para bloqueio de sites ilegais de apostas

Agência afirma que uso de VPNs, hospedagem no exterior e pulverização de provedores dificulta cumprimento das ordens de bloqueio enviadas pela Fazenda; governo descreve ações integradas para enfrentar mercado clandestino e manipulação de resultados.

A Anatel destacou, durante audiência pública da Comissão de Ciência, Tecnologia e Inovação da Câmara dos Deputados, nesta quarta-feira, 10, que enfrenta obstáculos técnicos para executar bloqueios de sites ilegais de apostas. O conselheiro Edson Holanda afirmou que as ordens enviadas pelo Ministério da Fazenda são repassadas a 17 mil prestadores de telecomunicações, mas o ambiente digital dificulta a efetividade das medidas.

Anatel sites ilegais apostas

Segundo Holanda, a pulverização de prestadores e o uso de tecnologias que ocultam o destino final da navegação reduzem o alcance do bloqueio. “Muitas vezes, a fiscalização da Anatel tem que fazer uma postura pedagógica de explicar como deve ser feito o bloqueio”, disse. Ele acrescentou que “quando você usa VPN, você mascara o destino final e a partir desse momento o bloqueio se torna mais complexo”.

O conselheiro defendeu a necessidade de instrumentos legais que permitam atuar diretamente sobre infraestrutura relevante. “É ir para o atacado. É muito mais fácil e efetivo fazer o controle por quem fornece a infraestrutura do que fiscalizar 17 mil prestadores na ponta”, afirmou.

Fazenda amplia monitoramento e parceria com Big Techs

O subsecretário de Monitoramento e Fiscalização da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda, Fabio Macorim, apresentou o panorama de combate ao mercado clandestino. Desde outubro de 2024, a pasta determinou o envio de mais de 20 mil endereços ilegais para bloqueio. Entretanto, reconheceu baixa efetividade, pois basta que um operador troque o domínio para voltar ao ar, hospedado em paraísos cibernéticos.

Macorim explicou as frentes adotadas pela secretaria, que incluem meios de pagamento, plataformas digitais e provedores de tecnologia. Ele afirmou que “firmamos um acordo de cooperação com o Conselho Digital do Brasil, que engloba as grandes big techs […] e conseguimos com eles canais diretos para a comunicação de publicidades ilegais”. Segundo o subsecretário, o Ministério também atua com o Conar para retirar conteúdos irregulares de redes sociais e já obteve remoção de centenas de páginas e anúncios.

Outra frente envolve impedir movimentações financeiras clandestinas e, consequentemente, auxiliar a Anatel para bloquear os sites ilegais de apostas. De acordo com Macorim, a pasta já recebeu mais de 2 mil comunicações de instituições financeiras e identificou o encerramento de mais de 400 contas usadas para operações ilegais. “Passamos a ver quem está oferecendo a chave PIX para esse site atuar”, disse.

Ele ainda ressaltou a importância de atacar a cadeia de tecnologia usada pelas bets clandestinas. “A gente trazer os provedores de jogos para dentro da nossa regulação vai nos possibilitar exigir que forneçam seus jogos somente para o mercado legalizado”.

Esporte alerta para impacto das quadrilhas de manipulação

O secretário nacional de Apostas Esportivas do Ministério do Esporte, Giovanni Rocco Neto, reforçou que a existência de milhares de sites clandestinos afeta a investigação das quadrilhas que manipulam resultados esportivos. “As quadrilhas de manipulação de resultado estão manipulando o resultado e estão fazendo a descarga das apostas no site legal. Na prática, é ladrão roubando ladrão”, declarou.

Ele afirmou que o governo desenvolve um sistema digital de inteligência para monitorar o fluxo das odds e identificar movimentos suspeitos, inclusive no submundo das plataformas ilegais. “Estamos desenvolvendo um sistema de inteligência artificial para monitorar o fluxo das ODS para monitorar também o fluxo nesse submundo das casas ilegais”, explicou.

O secretário também destacou a formulação da Política Nacional de Combate à Manipulação de Resultados. “Educamos para não precisar punir, e numa outra frente punimos de forma pedagógica para que entendam que o Estado está presente para fazer esse enfrentamento”.

Avatar photo

Paula Coutinho

Jornalista com mais de 20 anos de experiência profissional, com passagem pela grande imprensa, em jornais diários, semanários, revistas, rádios e emissoras de TV.

Artigos: 297