Tonisi: “o 5G vai competir diretamente com a fibra e o WiFi a partir deste ano”

Para Luiz Tonisi, presidente da Qualcomm para a América latina, o lançamento do Release 17 do 5G, previsto para este semestre, irá garantir que as operadoras comecem a monetizar a rede, principalmente porque traz uma nova tecnologia - o RedCap- que vai baratear os produtos para novas aplicações.

Luiz Tonisi presidente da Qualcomm para a América latina, não tem dúvidas de que o lançamento do Release 17 do 5G, previsto para este semestre, irá permitir que as operadoras comecem a efetivamente monetizar a rede, principalmente porque traz a nova tecnologia – o RedCap- que vai baratear os produtos. O RedCap, ensina, permite que os equipamentos trabalhem só com 20MHz no 5G, tornando-os mais baratos. Com isso, acredita que não só se ampliará a conectividade dos produtos caseiros, como geladeira e TV, mas também avançarão a passos largos a IoT e o FWA, que serão competidores diretos da fibra e do WiFi, aposta.

Em outra frente, anuncia que a sua empresa já terá no Brasil, no próximo ano, aparelhos com chips de inteligência artificial instalada no próprio aparelho, e não apenas na nuvem, o que, segundo o executivo, abrirá um leque de muitos novos serviços para o usuário.

Leia aqui o principais trechos da entrevista:

Quando acha que o 5G mostrará ao que veio?
Luiz Tonisi:  A monetização do 5G começará a partir do ano que vem,  com a introdução do Release 17.

 O que o Release 17 muda no 5G? O que ele traz?
Tonisi: O release 17 introduz uma coisa que se chama RedCap, que é o reduced capability, e isso permite que se trabalhe só com 20MHz no 5G. Isso é ótimo para Internet das Coisas. Também surgirão alguns serviços em FWA (Fixed Wireless Access) só nesse tamanho de banda. E aí você perguntaria: eu não poderia usar 20MHz hoje já em device service? Sim, mas os aparatos que vão vir com o RedCap são economicamente mais efetivos que os aparatos que existem hoje.

O aparelho de celular 5G já tem capacidade de receber essa nova versão, do Release 17?

Tonisi: O celular não, porque não tem RedCap. Mas um aparelho de IoT, um FWA, uma geladeira, todos terão acesso. Hoje, tudo esta conectado no WiFi. Com esse novo Release, você vai poder conectar tudo no 5G com o RedCap. E o custo de conectar o device, o módulo, é muito menor do que existe hoje com o Release 16. Lógico que não tem as mesmas características. O Release 16  usa 100 MHz, que é a banda que cada operadora que comprou espectro no Brasil tem. Mas os produtos de Iot, por exemplo,  só vão usar 20MHz porque são feitos para usarem só 20MHz. São mais baratos, e conseguirão popularizar que a  sua geladeira, sua TV possam estar conectadas. E também, trarão um FWA mais barato.

Mas a minha geladeira não falará com minha TV, pois são de marcas diferentes, e não há interoperabilidade entre elas…. Como vocês vão resolver?
Tonisi: É, cada um vai ter a sua conexão. Por exemplo, você compra um carro e, dependendo do carro que comprar, ele já sai conectado. Pra você, o importante é ver a aplicação, não precisa enxergar a conectividade.

No caso do FWA, as operadoras reclamam que preço do equipamento ainda é altíssimo.
Tonisi: Na verdade, o  sistema  FWA 5G já é mais barato que a fibra óptica já atualmente. E, com o REdCap, a CPE vai custar ainda mais barata. .

Em relação ao network slicing, você prevê  novos serviços para o uso dessa funcionalidade?
Tonisi: Mais para mercado B2B, para serviços que precisam de algum diferencial de SLA (garantia de entrega)  de latência.  Exemplo: porque eu tenho que fibrar uma câmera que fica em um poste de iluminação, se posso colocar um processador que se conecta na rede 5G? Não precisarei de qualquer outro aparelho conectado à câmara e transmitirei a imagem pelo 5G.

Acha que o 5G, a partir dessa evolução,  passa a ser um competidor efetivo e direto da fibra óptica?
Tonisi: Digo que ele passa a ser um competidor direto da fibra e do WiFi.

Mesmo que o Brasil não mude de posição, como foi sinalizado na recente Conferência da UIT, e mantenha 1200 MHz para o WiFi6? 
Tonisi: Mesmo que fiquemos com todo o 6GHz para o WiFi, o 5G passa a ser um competidor direto.  Vou  dar um exemplo de cidade inteligente: eu quero vigiar o centro de São Paulo. A prefeitura não precisa fibrar a área, é só passar as imagens para o 5G. O custo do equipamento vai ficar mais barato, porque não precisa ter toda aquela capacidade full do 5G para passar só imagem.

 Quais os segmentos  usarão essa nova tecnologia de uma forma mais intensa?
Tonisi: Appliances de uma forma geral. Geladeiras, carros, ar condicionados, câmeras. Tudo que tem hoje WiFi.  Depois, com certeza,  smart cities. No segmento B2B em geral vai haver muito uso. Imagina sensores com máquinas? Por que têm que estar na rede WiFi? O modem do robô, por que tem que estar no WiFi?  O RedCap vai ajudar muito nisso.

 Em relação às outras promessas. Por exemplo, os terminais acessando satélite, o uso intensivo de inteligência artificial….
Tonisi: A gente vai começar a lançar produtos com AI (Artificial Inteligence) on device. A AI que se conhece hoje está na nuvem. Com o nosso lançamento, a AI vai estar desde o device até a nuvem, e não só na nuvem.

O que significa ter AI no meu smartphone? Primeiro, o smartphone vai começar a aprender comigo, com meus hábitos, o que eu consumo. O smartphone vai aprender, e não a nuvem. Isso significa que você vai ter uma relação de personalização cada vez maior com o seu device, seja o seu smartphone ou o seu computador.

Nós lançamos agora o Snapdragon X Elite, que bate a Apple em termos de capacidade AI, processamento e GPU. Por exemplo, na Microsoft você tem a AI Copilot. Você está escrevendo um texto e ela faz recomendações de como escrever aquele texto. Um funcionário seu da redação te mandou e-mail e você costuma responder aquele tipo de pergunta de uma forma. A AI já vai te perguntar: ” quer que eu responda assim?” A partir do momento que ela está aprendendo com você, facilita sua vida, porque ela é uma assistente. Imagina que no seu celular você tem um assistente e você diz: ” marca um almoço para mim às 12h no restaurante tal…” O próprio celular vai ligar para o restaurante, como se fosse seu assistente, e vai colocar na sua agenda. São coisas de AI que vamos lançar  nas gerações novas de celulares e computadores que virão para o Brasil já o ano que vem. Em 2024 a gente vai começar a ver aplicação de AI para consumer.

A realidade aumentada, para mim, é que será a mais impactante para o consumidor final. Ela já chega no próximo ano?

Tonisi: Aos poucos vai começar a escalar.  No B2B esta começando a pegar tração, mas para o consumer, na minha opinião, 2024 não será o ano da realidade aumentada ainda.

 

 

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Miriam Aquino

Jornalista há mais de 30 anos, é diretora da Momento Editorial e responsável pela sucursal de Brasília. Especializou-se nas áreas de telecomunicações e de Tecnologia da Informação, e tem ampla experiência no acompanhamento de políticas públicas e dos assuntos regulatórios.
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