Inteligência artificial vai prevalecer sobre a humana em pouco tempo, afirma Cavallini

Ricardo Cavallini, expert em inovação e integrante da SingularityU Brazil, alerta que a sociedade civil deve participar mais do debate sobre Inteligência Artificial, visto que ela vai prevalecer em pouco tempo. Entre as perguntas: "devemos permitir máquinas autônomas?".
Inteligência artificial vai prevalecer sobre a humana em pouco tempo, afirma Cavallini
Ricardo Cavallini defende maior participação da sociedade. Crédito: Divulgação

Presente no Brasil por meio de uma parceria com a HSM, plataforma de educação corporativa, a SingularityU Brazil é uma  subsidiária da Singularity University (SU), instituição global de vanguarda nascida na sede do Research Park da NASA e que hoje se mantém no Vale do Silício. Entre os experts da SigularityU Brasil está Ricardo Cavallini, consultor de inovação focado em projetos de transformação digital envolvendo inteligência artificial, internet das coisas, impressão 3D e outras tecnologias exponenciais.

Autor de seis livros que abordam tecnologia, negócios e comunicação, Cavallini criou o RUTE, kit educacional eletrônico aberto para ajudar estudantes de escola pública que não têm acesso a tecnologia. Pioneiro do movimento maker, é um dos apresentadores do Batalha Makers, reality show sobre a cultura maker no Discovery Channel (Brasil e Latam).

Nesta entrevista ele fala sobre os desafios da inteligência artificial. Para ele a IA lidera o rol de tecnologias exponenciais – impressão 3D, internet das coisas,  genética do futuro – e como todas vão impactar diversos aspectos das diferentes verticais e da própria sociedade.

DMI: Quais as principais tecnologias exponenciais e de que forma elas estão moldando o mundo?
Ricardo Cavallini: São tecnologias que estão numa evolução muito rápida. A Lei do Moore dizia que os computadores dobram de capacidade a cada dois anos; muitas dessas tecnologias como inteligência artificial dobra o poder de fogo a cada três meses. A aceleração é exponencial. Além de inteligência artificial temos, impressão 3D, internet das coisas, crispr ou genética do futuro, computação quântica. Todas têm um impacto muito grande. A inteligência artificial, por exemplo, vai impactar saúde, agricultura, finanças, não é um só segmento que será impactado. Quando falamos em tecnologias exponenciais, temos de trabalhar em duas frentes. A primeira é como mitigamos os problemas e desafios que elas vão trazer. E a outra, que tem pouca gente falando mas a Singularity tem excelência muito grande, é como a gente coloca fogo para que essas tecnologias causarem o bem, gerar emprego, conforto e sustentabilidade. A Singularity, que lida com uma série de executivos, não só mostra caminhos como fomenta essa demanda.

DMI: E quanto ao 5G?
Cavallini: É uma tecnologia mais habilitadora. Apesar de ser um avanço, não considero exponencial porque as gerações de telefonia móvel mudam a cada cinco anos. Se formos comparar o poder do 5G em laboratório – porque a vida real é diferente – em relação ao 4G, a evolução foi exponencial também. A Realidade Virtual e a Realidade Aumentada também são tecnologias em rápida evolução, embora não tão rápida quanto a IA, e vai ter impacto em diversos segmentos e indústrias: educação, saúde, serviços.

DMI: E como a IA está nesse rol de tecnologias exponenciais?
Cavallini: Há uma característica da Inteligência artificial que talvez a separe das outras tecnologias: não só é tão rápida quanto, terá impactos em muitos segmentos como as outras, mas estará junto a todas elas. Uma boa parte da evolução da impressão 3D virá junto com a inteligência artificial; assim como a IoT. Ou seja IA é pervasiva e cross tecnologias.

DMI: Em termos de aplicação, o que há de mais interessante do que os Boots de call center?
Cavallini: Fala-se muitos dos boots porque são a maneira mais visual e prática de se enxergar a IA. Mas há uma maneira de se entender a IA. Estamos falando da próxima grande evolução do código. Absolutamente tudo a nossa volta tem código, e quando se usa essa evolução da IA, passa-se a dar vazão nova para sensores que antes eram muito limitados. O microfone, por exemplo, era um sensor limitado. Hoje empresas estão colocando microfones pela cidade para detectar barulho de tiros e avisa a polícia em segundos quantos tiros de quais armas. A câmera é outro sensor que se usava de maneira limitada e hoje se consegue entender uma gama variada de coisas. No Metrô do Japão se um criança se perder, a mãe pode descrevê-la e com a IA, localiza-se muito rápido. O uso da IA vai ser muito mais profundo porque terá impacto em tudo. Quando se fala de América Latina e Brasil o uso pelas empresas está muito avançado. O Brasil está gerando muitos papers e há uma boa proporção de profissionais masculinos e femininos.

DMI: E quanto à politica para o setor?

Cavallini: Enquanto país estamos muito atrasados em relação a outros países. Isso é importante porque essas tecnologias vão gerar um impacto assustador de geração e perda de PIB e de empregos. Estamos vendo países colocado bilhões de dólares nessas tecnologias exponenciais. O Raymond Kurzweil, um dos co-fundadores da Singularity afirmou que os próximos 100 anos de evolução vão ser equivalentes no progresso humano a 20 mil anos. Vocês conseguem imaginar países como EUA e China 20 mil anos a frente do Brasil? Vamos virar formigas; daí a necessidade de aceleramos isso. Uma das iniciativas que estamos tocando na Singularity é como fazer com que essas tecnologias se tornem um plano de Estado.

DMI: Como estão a estratégia e o Marco Legal da IA?
Cavallini: É importante falarmos de estratégia e termos um Marco e discutir esse assunto. O Marco tem algumas coisas positivas como definir para as pessoas o acesso a informações e os critérios utilizados; definir reponsabilidade. Isso tudo é o copo meio cheio. Mas, quando a gente olha é tudo muito genérico, pouco prático e óbvio. Muito o que está dito lá já tínhamos legislação como LGPD e CDC. É legal formalizar e dar um pouco de segurança jurídica, mas a sensação que tenho é de que estamos fazendo reunião para marcar reunião. Não dá para dizer que isso é totalmente inútil, mas o Marco foi muito pobre e estamos muito devagar.

DMI: O que deveria ser tratado que não foi?

 Cavallini: Historicamente, quando se fala em estratégia tende-se a definir setores prioritários. Quando falamos em tecnologias exponenciais para geração de PIB e emprego, não podemos fazer essa leitura tão estreita. Uma boa estratégia que faria sentido era falar de sustentabilidade que ser á uma força do Brasil nos próximos anos. Além disso, precisamos de ação e coordenação. Uma ação prática seria juntar a sociedade civil e fazer mudanças de leis para viabilizar que a inovação aconteça de verdade. E, principalmente, colocar dinheiro. Óbvio que não termos os bilhões dos EUA, mas precisamos colocar dinheiro nessa história.

DMI: Quais são as principais discussões éticas envolvendo IA?

Cavallini: Tem duas frentes, uma de longo prazo mas menos relevantes como pessoas se apaixonando por boots ou no futuro havendo menos empregos, as pessoas vão ter que entender o propósito de vida, que para muita gente hoje é a profissão. Entre as questões de curto prazo está o viés e dentro dele o mais grave é o viés social (etnia, gênero) e todos os seus preconceitos. Quando se ensina uma máquina que “cabelo ruim” é cabelo de negro é porque pegou toda a base  e fotos comentando o que é cabelo ruim e carrega todo esse preconceito para ferramenta. Mas o viés não é só de gênero e raça. Se a IA está analisando a seguradora a cobrar pelos seguro do carro, vai procurar encontrar padrões para ver onde a pessoa se encaixa. Pessoas que têm carro vermelho, vou cobrar um seguro mais alto, porque existe a crença de que ele é mais arrojado.

DMI: O que está sendo feito para se eliminar o viés?

 Cavallini: Tem dois aspectos do Marco Legal importantes: a responsabilidade da empresa que não pode alegar que a IA decidiu e ela não tem responsabilidade. O Código de Defesa do Consumidor já protegia isso, mas é bom ter mais uma segurança jurídica muito bem explicada. A segunda é a “inteligência artificial explicável” (explainable AI), que diz respeito ao acesso à informação e os critérios utilizado. Isso é muito relevante. Em Belo Horizonte, a Kumuni tem sensores em UTI de hospital e uma IA avisa ao médico se o paciente precisa de uma atenção especial. E tem esse conceito de explicação, usando os médicos para ajudar no treinamento da IA. E quando avisa o médico para ver o paciente, explica por quê. Isso não só ajuda a IA a ser mais precisa e, do ponto de vista prático deixa claro para o ser humano porque ele tem de olhar o paciente.

DMI: Para o cidadão qual a vantagem?
Cavallini: Esse conceito de explainable IA é importante não apenas para mitigar vieses e preconceitos, mas também toda a parte do consumidor que pode entender por que o convênio médico foi negado.

DMI: Por que ocorrem esses vieses de raça, opção sexual, etnia, condição social? Isso é um reflexo da própria sociedade?

Cavallini: Tem todo tipo de coisa. Eu estou fazendo um carro autônomo e o veículo não identifica negros ou neve. Porque o ser humano que treinou foi preconceituoso ou não pensou na amplitude da necessidade de treinamento. Mas a maior parte dos casos é porque os dados já vêm viciados. Por que tem pouco negro na publicidade? Por causa de um preconceito da sociedade.

DMI: Como você imagina a IA em 20 ou 30 anos?
Cavallini: O que sabemos é que em poucos anos teremos mais inteligência artificial do que humana. Isso tem um impacto tremendo em muitas frentes: geração de PIB, geração de emprego ou perda dos dois. Quando pensamos a longo prazo, o conceito de IA forte, que não faz apenas uma atividade – só um chat, só um carro autônomo. Elas fazem diversas atividades simultâneas. Em 20 a 30 anos, quando tivermos IA forte, computação quântica, a evolução vai ser tão rápida, que vai ser muito difícil prever o que vai ser esse mundo. Daí a importância de não só se investir nisso, mas também discutir mais enquanto sociedade. A gente deveria permitir armas autônomas? Deveríamos permitir que máquinas fizessem experimentos com crispr, a genética? Precisamos urgentemente coloca em debate essas questões.

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Da Redação

A Momento Editorial nasceu em 2005. É fruto de mais de 20 anos de experiência jornalística nas áreas de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC) e telecomunicações. Foi criada com a missão de produzir e disseminar informação sobre o papel das TICs na sociedade.

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