ONS abre nova rodada de acesso ao grid em 1º de junho
Nova regra substitui ordem de chegada por temporadas de acesso à transmissão; operador já recebeu mais de 90 pedidos, somando mais de 10 GW

O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) abre em 1º de junho o cadastramento da primeira temporada de acesso à rede de transmissão sob a nova política federal para conexão de grandes consumidores. A mudança afeta diretamente projetos de data centers, setor que já apresentou mais de 90 pedidos de acesso ao operador desde janeiro de 2025, somando mais de 10 GW de potência.
A primeira temporada será realizada em outubro. O novo modelo substitui o processamento por ordem de chegada por chamadas públicas periódicas. A informação foi apresentada por Gustavo Rodrigues, assessor executivo da Diretoria de TI, Relacionamento com Agentes e Assuntos Regulatórios do ONS, durante o painel “A Cidade no Limite Energético: Planejamento Urbano no Contexto do Boom da IA”, no Smart Cities Mundi 2026.
“Até hoje, como é que a gente dava os acessos? Por ordem de chegada. Isso era ruim, Porque quem chegava primeiro levava e quem chega primeiro nem sempre é o melhor negócio”, afirmou Rodrigues.
Segundo ele, a mudança decorre da política nacional de acesso ao sistema de transmissão. “O que são essas temporadas de acesso? A gente abre chamadas públicas, capitãos interessados em acessar a rede. Se o sujeito quiser acessar num lugar que cabe, ótimo, o espaço é dele, direto”, disse.
Quando não houver capacidade no ponto solicitado, o ONS informará a limitação à Empresa de Pesquisa Energética (EPE). Se dois agentes disputarem a mesma margem disponível, haverá avaliação da capacidade financeira dos projetos. “Nós vamos verificar quem é que tem mais capacidade financeira para levar aquele produto ali, a margem do sistema de transmissão, que é escassa”, afirmou.
Pedidos somam mais de 10 GW
Rodrigues afirmou que os data centers já são uma demanda presente para o sistema elétrico. “Data Center não é um assunto do futuro, Data Center é um assunto do presente. Nós ONS já estamos lidando com acesso de Data Center, inclusive com vocês, desde janeiro de 2025”, disse.
Segundo o executivo, os mais de 90 pedidos recebidos pelo ONS representam mais de 10 GW, cerca de 10% da carga máxima do sistema elétrico brasileiro. “Nós recebemos nesse um ano e pouco mais de 90 solicitações de acesso de data center isso dá mais de 10 gigawatts”, afirmou.
Do total de solicitações, cerca de 70% tiveram parecer favorável. Metade dos acessos favoráveis evoluiu para contrato, segundo Rodrigues. Para ele, o dado mostra que os projetos estão avançando, embora a escolha do ponto de conexão seja determinante.
“Quem quer acesso está pedindo, quem pede acesso no ponto certo está conseguindo, quem quer levar seu negócio para frente está assinando o contrato, está construindo o dataset e eles estão começando a entrar em operação”, afirmou.
O representante do ONS disse não ver gargalo estrutural na transmissão, mas alertou que não há sobra ociosa no sistema. “Nós não temos sistema sobrando. Nenhum país do mundo com uma economia competitiva tem sistema sobrando, porque ociosidade vira custo, o custo vira tarifa”, disse.
Campinas e Araraquara já têm limitação
Rodrigues afirmou que ainda há espaço para data centers no Brasil, mas não em qualquer local. Ele citou Campinas e Araraquara como áreas em que a margem já foi consumida.
“Gente, não cabe mais nada em Campinas, a margem de Campinas já foi toda para o espaço, não cabe mais nada em Araraquara, mas em Itabari cabe. Santo Cabo, Porto de Açú, nós emitimos parecer para o Porto de Açú na semana passada”, disse.
Segundo ele, o setor precisa chegar ao sistema elétrico com projetos mais estruturados. “Um player bem posicionado, contratando uma boa consultoria, acha esses espaços. Agora, esse espaço é infinito? Não, não é, mas para isso tem planejamento”, afirmou.
O executivo também rejeitou a ideia de que a concentração de data centers em um mesmo local seja, por si só, um problema insolúvel para o sistema elétrico. “A gente precisa de engenharia, de infraestrutura, mas o setor está preparado para prover isso”, disse.
EPE fará estudo sobre o Rio
Lucas Simões de Oliveira, consultor técnico da Diretoria de Estudos de Energia Elétrica da EPE, afirmou que a empresa iniciará em junho um estudo específico sobre a área Rio, em conjunto com distribuidoras e ONS. O objetivo é mapear projetos de data centers e avaliar como a infraestrutura precisa evoluir em diferentes cenários.
“Especificamente para a área Rio, a gente está coincidentemente começando o estudo agora em junho, a reunião de abertura é amanhã, com as distribuidoras, com o ONS, para justamente mapear o potencial do estado do Rio de Janeiro, os projetos de data-sema que já aparecem e como que a infraestrutura precisa evoluir para diferentes cenários de concretização”, afirmou.
Segundo Lucas, há projeção de 3 GW em projetos no estado do Rio de Janeiro. “Quando eu falo aqui A gente tem mapeado Projeção de 3 gigawatts No estado do Rio de Janeiro”, disse.
O consultor afirmou que energia, transmissão e distribuição precisam entrar na decisão de localização dos empreendimentos. “A energia é uma parte fundamental desse processo para os players. Do mesmo jeito que eles olham a fibra ótica, também tem que ser olhado a infraestrutura de distribuição”, afirmou.
Para ele, a nova política de acesso deve reduzir especulação e melhorar a qualidade das decisões. “Além de ter a temporada em que faz um estudo só com todo mundo, para participar tem que colocar dinheiro na mesa, para a gente tomar as decisões de investimento corretas”, disse.
Energia define localização
Fernanda Belchior, diretora de Marketing e Vendas da Elea Data Centers, afirmou que o setor passou a tratar energia como fator central na escolha de localização.
“A gente sempre falou de site selection. A gente sempre olha para terreno, quando vai consumir um data center, quando vai pensar em investimento. E o energia virou um ativo tão importante que hoje, há alguns poucos anos, o termo é energy selection”, disse.
Segundo Fernanda, energia de qualidade e resiliente é condição para a operação dos data centers no longo prazo. “Então a energia é o nosso insumo principal. E a gente precisa estar muito próximo desses centros geradores, distribuidores de energia para que os nossos data centers possam funcionar no longo prazo”, afirmou.
A executiva citou o projeto Rio AI City, na região da Barra Olímpica, no Rio de Janeiro. Segundo ela, a primeira fase prevê 1,5 GW, com possibilidade de expansão para 3,2 GW. “É como se eu pegasse toda a energia de São Paulo e colocasse ali numa região do Rio de Janeiro”, disse.
Fernanda também afirmou que a Elea prevê aporte de R$ 2,5 bilhões no curto prazo e tem portfólio de projetos equivalente a US$ 10 bilhões. “E se a gente olha hoje o nosso portfólio de investimentos como companhia, a gente está falando de projetos que são equivalentes a 10 bilhões de dólares”, afirmou.
Planejamento urbano
Valéria Magiano Hazan, coordenadora técnica de Planejamento Urbano da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano e Licenciamento do Rio de Janeiro, afirmou que os data centers também impõem desafios de uso do solo, impacto urbano, energia, água e comunicação com a população.
A urbanista citou a renovação do Plano Diretor do Rio, aprovado em janeiro de 2024, e novas legislações para o Parque Olímpico. “A gente vai renovando e atualizando também conforme as demandas, porque, como vocês falaram, é imprevisível”, afirmou.
Segundo Valéria, a cidade precisa conciliar atração de investimentos e impactos urbanos. “Como é que você coloca um data center em algumas áreas que já são bastante avançadas e que não fique um bunker?”, questionou.
Itaguaí busca atrair infraestrutura
Rafael de Farias Rocha, secretário de Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicação de Itaguaí, afirmou que o município busca se preparar para receber data centers e empreendimentos de infraestrutura digital.
Ele citou a presença de quatro navios termelétricos movidos a gás natural na Baía de Sepetiba, uma hidrelétrica reversível em instalação, o Porto de Itaguaí, o Arco Metropolitano e áreas disponíveis no município.
Rafael disse que o município busca organizar a infraestrutura para atrair novos investimentos. “O que a gente vê às vezes é isso, é falta de integração e falta de organização desse movimento para a cidade se preparar, para a cidade poder evoluir”, afirmou.




